vida de marmita

hoje quando saía do trabalho tentei salvar um gato. ele era muito magrinho, tinha o pelo preto todo encardidinho e estava desorientado quase sendo pego pelos carros no cruzamento. talvez já tivesse sido atropelado quando o vimos. hesitei e pensei ‘os gatos sabem de si’, fui indo embora. vi que ele tinha qualquer coisa a sair pela boca e voltei, fui correndo atrás dele desembestada pela rua. buzinaço, seis da tarde, vamos embora, que se foda o gato, minha senhora. e ele magrinho, desesperado, só queria chegar ao seu canteirinho. na rua dos fundos há um canteiro onde colocam comida e água sob uns arbustos e vivem ali uns gatinhos rafeiros muito fofinhos e feinhos. ele miava e chamava os amigos que se escondiam atrás de um muro com o receio felino de se aproximar. os transeuntes ignoravam o circo porque na outra esquina já vinha chegando o autocarro e na hora de ponta toda gente quer ir embora logo pras suas casas, preparar a janta e a marmita, ver o benfica, quem é que se importa com um gato magrelo sem dono? ele por fim conseguiu chegar ao seu cantinho e ficou lá encolhido à espera da sua turma, que possivelmente só poderia oferecer conforto para os momentos de dor e talvez morte. fui indo embora com os passos lentos e tristes, apanhei o autocarro seguinte. consegui me sentar. vim ouvindo um podcast e pensando sobre vidas precárias, as nossas e a dos gatos. vi o benfica. não fiz a janta e nem preparei a marmita.

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