and suddenly we’re in love with everything

não acho que nem eu nem ninguém não sejamos capazes de escrever. basta saber juntar letras, basta ter tempo, basta ter um espaço, uma mesinha, sosseguinho, uma noite bem dormida, duas xícaras de café, uma de chá, o coração organizado, as compras feitas, as contas pagas, as mensagens respondidas, a barriga alimentada de modos que não esteja cheia a ponto de dar sono e nem vazia a ponto de tirar a concentração. quando essas coisas estão todas aí em ordem podemos pensar em escrever, mas principalmente quando estivermos seguras para além da sobrevivência, falo também daquela segurança de que podemos transformar nossas vivências em frases bonitas, mas precisamos viver pra ter vivências e pra viver precisamos ter trabalho & dinheiro e noites de sono mais ou menos bem dormidas, alguns orgasmos intensos que nos colocam naquele prazeroso limiar entre a vida e a mortezinha. aguentar os dias longos & curtos e os amigos que querem notícias, os folgados que querem dicas e não agradecem, os ex-amantes que sentem a nossa falta, sem saber bem do quê. sem perder tempo ouvindo os novos discos todos, vamos ouvindo os antigos, aqueles que funcionam como diário, que nos recontam quem a gente era há tantos anos, que nos lembram que vivemos em espiral e naquela época éramos assim e sentíamos aquilo e daí finalizamos um ciclo e começamos outro e eles são todos iguais, porque todos eles nos contêm. vamos acompanhando o passar do dia pela posição e a cor da luz no telhado do prédio ao lado e devagarinho vamos escrevendo romances ou poemas ruins ou posts no facebook ou então aquela coisa esquisita que é mandar áudios no whatsapp contando toda a nossa vida nas últimas trinta e cinco semanas só pra depois nos criticarem o sotaque todo misturado que a vida nos presenteia quando mudamos de cidade, de país, quando trocamos de pele e aprendemos a ser cada dia mais quem a gente quer. e, no fim, quem sabe sobra um tempinho, um descanso, a cabeça consegue juntar as letras, formar as palavras e contar umas historinhas desconexas e cansadas, escrever meia dúzia de coisas, ir escrevendo sem escrever, amanhã talvez sai, ou então na semana que vem?

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