noutro tempo, noutra configuração

passei uns seis meses antes de me mudar pra portugal ouvindo toda a discografia do b fachada e sonhando como seria a minha vida aqui. o que descobri depois que cheguei é que não conseguia mais ouvir nada dele, até perdi uns 03 ou 04 shows. o último deles desisti faltando 15 min pra começar. num outro ouvi de longe, mas preferi buscar cerveja e fazer xixi num bar na rua da alfândega. também teve um dia que cheguei atrasada e o show já tinha acabado e ele ia lá estacionando o carro vintage no largo do intendente pra buscar a família e ir embora. fiz um comentário debochado e fui buscar uma cerveja. acho que parte do meu descaso tem a ver com coisas que me disseram quando cheguei, sobre ele ser hipster ou qualquer coisa assim. não me incomodava com o fato dele ser hipster, até porque na altura eu nem sabia muito sobre as particularidades de um hipster tuga. mas calei e assenti porque queria fazer amigos e quando a gente é estrangeiro vive sempre num estado de alerta com medo de falar o que realmente pensa, principalmente no começo. o outro motivo é que os seis meses que passei ouvindo os discos dele todos os dias me fizeram criar um portugal imaginário; um lugar onde eu tinha amigos novos e encantava todos com o meu charme & irreverência de pessoa latinamericana porém cosmopolita, inteligente etc. no meu portugal imaginário eu passeava de shortinhos curtos pelas ruas lisboetas sem nunca escorregar nos ladrilhos da calçada portuguesa e absorvia séculos de cultura & arte por osmose enquanto transcendia meus medos provincianos & traumas emocionais e me transformava num ser de luz que todos amavam e admiravam. hoje ouvi uns dois discos dele. quando “sozinho no róque” começou a tocar me vi no antigo apartamento em são paulo, na minha janela com vista pras obras do shopping paulista, uma vida tão distante de mim. hoje a minha ideia de brasil & portugal já é outra, o olhar é de quem carrega em si dois mundos. as origens brasileiras fundidas nas portuguesas. uma história que começou aqui e foi pra lá com o meu avô, voltou pra cá comigo e eu nem nunca tive coragem de ir ver a casa onde ele nasceu. tenho agora um corpo nômade que deixou de ter raízes fincadas, mas que sente uma falta danada das noites quentes estreladas e sem vento lá do sul de minas; o barulho das cigarras, dos grilos, de um cão ou outro que latia, do reclame do jornal na televisão, o cheiro de capim & saudade.

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