pestanas

são o que chamamos de cílios. voltei a andar com os fragmentos do discurso amoroso na bolsa porque precisava ler qualquer coisa que não fosse teoria sociológica ou manual de maquinário ou homens reclamando de feminismo no facebook. abri aleatoriamente no capítulo do corpo do outro enquanto ia no metro, mas adormeci, cansada. durante o jantar reparei nas pestanas dele. são bonitas, grandes. de manhã cedinho na cama eu disse que elas ficariam lindas com rímel. enquanto eu voltava no metro o barthes dizia: “Via tudo do seu rosto, do seu corpo, friamente: as pestanas, a unha do dedo do pé, a finura das sobrancelhas, dos lábios, o brilho dos olhos, um determinado sinal, uma maneira de estender os dedos ao fumar; estava fascinado – não sendo o fascínio, em suma, senão a extremidade do desprendimento – por essa espécie de figura colorida, de faiança, vitrificada, onde podia ler, sem nada compreender, a causa do meu desejo”.

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às vezes me perguntam por que é que me exponho quando escrevo. não vejo como uma questão de exposição, é só uso da substância mais próxima de mim; estudos sobre as coisas todas a partir do que acontece em camadas minhas. se há traços de realidade, então devemos questionar o que é realidade. realismo. são só coisas. um amontoado de emoções & sentimentos debaixo de um pacote de pele. a ideia de que uma mulher usa a própria vida como material artístico soa subversiva, e talvez até o seja; nesses tempos sombrios devemos usar nossa intimidade como arma, devolvê-la na cara das pessoas que ainda acreditam na racionalidade do descartes, velho babão, ou na discrição como conduta social. e então passeando pelo instagram vi isto: “I think that “privacy” is to contemporary female art what “obscenity” was to male art and literature of the 1960s. The willingness of someone to use her life as primary material is still deeply disturbing, and even more so if she views her own experience at some remove. There is no problem with female confession providing it is made within a repentant therapeutic narrative. But to examine things coolly, to thrust experience out of one’s own brain and put it on the table, is still too confrontational“, Chris Kraus.

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hoje tive mais uma aula sobre performatividade da linguagem. os atos de fala como criação de enunciado e determinação de um contexto; a linguagem nos envolve, nos aprisiona, nos subjetiva e nos liberta? como tomar nossa identidade de volta? a teoria queer vem dizer que é através da repetição. o yoda diz: you must unlearn what you have learned. repetição + yoda:

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