vou ficar mais um pouquinho

o walcott é um dos grandes autores pós-coloniais; reli o love after love sob essa perspectiva: do corpo colonizado que se liberta da opressão do colonizador. ontem fui beber um café na rua na hora do almoço e uma das funcionárias do estabelecimento, sem saber que eu era brasileira, fez um comentário sobre brasileiras com a outra funcionária, que por sua vez, sabendo que sou brasileira, olhou pra mim e riu sem graça. esses pequenos incidentes acontecem com muita frequência nos cafés de alvalade. as pessoas parecem ter uma fixação com as brasileiras, ou um hábito que talvez considerem inocente de fazer piadelas depreciativas: “é só uma brincadeira que faço com a minha colega, estamos sempre a brincar”. meu corpo reage mal, cada vez pior eu diria. a tônica do meu dia muda completamente. respondi: “pois, as brasileiras sempre levam…”. como explicar ao colonizador a dor do colonizado depois de tantos anos de falácia sobre sermos países-irmãos? como fazer as pessoas entenderem a profundidade que pode ter para o outro aquilo que pra elas é uma brincadeira de café? como ser quem eu quero ser quando me dizem que sou outra coisa? mesmo os comentários mais sutis, mesmo quando, com falsa simpatia, tentam puxar assunto introduzindo o meu estrangeirismo, quando apontam a mais leve das nossas diferenças ou quando fazem piadas com a língua, o que sinto dizerem é: você não é daqui, este não é o seu lugar, vá embora. mas eu não vou, eu resisto. cansada, mas resisto. este lugar aqui também é meu. e eu:

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