porque é de ti que me vem o fogo

demos não sei quantas voltas pra chegar à rua certa. estávamos bêbados e tropeçamos nas peças soltas das calçadas. derrubei cerveja no meu vestido todo que já cheirava a cigarro por causa do tempo que passamos no ambiente fechado com muita gente a fumar compulsivamente. ele disse que íamos colocar tudo na máquina quando chegássemos em casa, mas estávamos tão bêbados e cansados que dormimos trepando. pedi a ele que me lesse um poema do herberto por noite antes de dormir e ele perguntou se haviam poemas que chegassem, uma pequena promessa de infinito. como é possível isso nos ter acontecido, é o que sempre nos perguntamos depois dos orgasmos intensos, fagulhas de conexão: é vontade de apressar & pausar o tempo. fazer passar mais rápido o tempo que temos juntos pra termos alguma certeza de que é possível que isso nos tenha acontecido, mas pra depois quando chegarmos lá na frente termos vontade de voltar tudo e estacionar o tempo nas escadarias da mouraria onde subindo e descendo falamos de tudo e de nada enquanto eu pensava: para, por favor, tempo. não há poemas do herberto que cheguem. ele então disse que teria que repetir alguns. o mundo está desmoronando mas não conseguimos olhar pra fora com muita atenção. usei o vestido preto que comprei em paris há dois anos numa espécie de luto pelo mundo desmoronado. largamos alguns dos nossos pedaços antigos na calçada do combro e fizemos xixi atrás de um carro na calçada do sacramento; quisemos salvar todas as coisas de todas as pessoas, mas só conseguimos acordar de ressaca fazendo piadas sobre a nossa condição e ouvindo músicas de fazer amor.

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