o inquieto

quando começa a chover, a sensação é de que a chuva nunca parou. de que não houve um verão inteiro no meio, sempre choveu, meu humor sempre foi cinzento. há quantos meses é que chove? hoje, lemos as cartas portuguesas nas aulas e eu quase dormi. não pelas cartas e nem pelo ardor da senhora freira, mas é que esse estado de espírito cinzento e medroso toma conta de tudo e eu não consigo raciocinar com as meias molhadas dentro das botas rachadas. enquanto estive no ponto de ônibus, pensei em desistir de ir pra faculdade e considerei voltar pra casa e me enfiar debaixo das cobertas, mas era só irritação com os adolescentes ruidosos, esses protótipos de seres humanos infelizes e cheios de tesão. não sei de onde eu tiro tanta raiva das coisas e das pessoas que nem conheço, nem muito menos de onde tiro tanto medo delas. às vezes, parece que criei pra mim um claustro como o da mariana alcoforado e vivo nele berrando um desamor solitário que quando correspondido já não vale de mais nada. no sábado, fui ao cinema ver o volume 01 das mil e uma noites do miguel gomes e chorei muito, em parte já antecipando o que viria no domingo, em parte porque, meu deus, como esse país é triste. tem tanta beleza melancólica em cada cantinho de cada vila; nenhum outro lugar no mundo é assim. que belo filme. o domingo amanheceu com um estranho clima de umidez tropical. fui votar. é curiosa a experiência de votar em outra pátria, que também é minha, mas afinal não é. as filas estavam grandes e as pessoas pareciam entusiasmadas perto do que normalmente são. o pessoal da igreja tentava aproveitar a marcha de transeuntes pra vender rifas de qualquer coisa que não prestei atenção. o bairro estava bem movimentado e pude acompanhar conversas esperançosas no café e na interminável fila do pingo doce. mas o fim da tarde foi chegando e uma chuva fina veio trazendo os resultados tristes. é um cenário político que não consigo compreender, mas, pensando bem, quanto mais tempo passo aqui, menos compreendo tudo o que vejo. terminei o dia ouvindo debussy por causa de uma cena linda do cheiro da papaya verde. hoje, quando acordei, chovia há meses.

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