equinócio

estava esperando o café subir enquanto o moço da rádio avisava que dali dois minutos chegava o outono. o que é que muda realmente? acho que desistimos das coisas porque nos foram deixando desistir enquanto nos diziam que éramos desistentes. é um paradoxo difícil de superar; isso de ter que ser duas coisas opostas ao mesmo tempo, ser homem e mulher, ser forte e fraca. mas nos disseram que era pra chegar lá, escalar montanhas, chegar ao topo do mundo, mas que não iríamos conseguir porque não éramos boas o suficiente. então nós viramos uns bichinhos assustadiços, só sabemos nos esconder das pessoas e rezar pra que elas apareçam na nossa porta pra ter certeza que ainda estamos aqui, mesmo que as ignoremos quando elas chamam. começamos e largamos as coisas porque não sabemos como terminá-las, não sabemos olhar para o caminho porque nos disseram que o caminho era duro e precisávamos chegar lá no fim dele sem vomitar no estofado do carro, só olhando pras árvores e montanhas pela janela cheia de adesivos. pra viajar tem que aguentar a estrada, diziam. mas nunca nos deram colo porque nunca tiveram colo, então vamos procurando uns colos por aí, às vezes bebemos e dançamos e esquecemos que somos tão machucados por dentro. e em outros dias a voz no rádio cai matando no coração, o cheiro que entra pela janela, uma música sem letra, a estrada que vai ficando pra trás.

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