munro, alice

A coisa estranha e terrível que estava a tornar-se-lhe clara sobre aquele mundo do futuro, ao imaginá-lo agora, é que nele ela não existiria. Limitar-se-ia a andar por lá, e a abrir a boca e a falar e a fazer isto e aquilo. Não estaria realmente lá. E o que mais tinha de estranho é que ela estava a fazer tudo isto, estava a ir nesta camioneta na esperança de se reaver a si própria. Como diria Mrs. Jamieson, e como ela própria poderia ter dito com agrado, a tomar conta da sua própria vida. Sem ninguém a olhá-la de cima, sem a má disposição de ninguém a contagiá-la de infelicidade. Mas depois ela havia de se interessar pelo quê? Como saberia que estava viva? Enquanto estava a fugir dele — agora — ainda Clark tinha um lugar na sua vida. Mas quando tivesse acabado de fugir, quando se limitasse a prosseguir, o que poria ela no seu lugar? Que outra coisa, que outra pessoa, podia representar um desafio tão imenso?

Alice Munro, Fugida

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