ao tio

tive um tio poeta e cronista, o tio zé. irmão mais velho do meu pai, vascaíno como ele; fã do pessoa e do miguel torga, o poeta da terra do pai, meu avô tuga. tio zé tinha heterônimos como o pessoa: zanoto — o mais famoso, krug pilard, p.h. xavier e julio da barca. não me lembro muito dos escritos dele, na época não entendia o que era poesia. o que mais me fica na memória são as cenas em que ele e minha tia dançavam felizes pelas festas afora. sentia vergonha e liberdade quando os via assim, que dançaram juntos até os cabelinhos branquearem todos, até o fim. encontrei algumas poucas coisas dele na internet:

12. Já ouvi alguém dizer que, pra melhorar, tem primeiro que piorar. Acredito que seja um negócio meio perigoso.

§

Nas horas pesadas, cinzentas,
um pássaro triste,
de canto melancólico,
anuncia um estar no mundo,
que entristece e comove.

§

Quando o flash estourou
eu
fechei os olhos
e vi
uma chuva de estrelas…

§

2. Fim de semana com familiares na Fazenda Mascatinho, no município de Varginha. O barulho do riacho e passarinhos revoando e cantando. Levei comigo para a Fazenda “Fragmentos de um discurso amoroso”, de Roland Barthes. Consegui ler umas 90 páginas. Geralmente, na Fazenda, a preguiça pega a gente. Segundo Barthes, “O discurso amoroso, ordinariamente, é um invólucro liso que adere à Imagem, uma luva suave envolvendo o ser amado. É um discurso devoto, bem-pensante. Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga; um tremor revira minha própria linguagem.”

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