in our sleep

as we speak

we’re unique

§

Tendo perdido um dos perseguidos, Ivan concentrou a sua atenção no gato e viu aquele estranho animal aproximar-se do estribo do eléctrico A, que estava na paragem, empurrar insolentemente uma mulher, que desatou aos gritos, agarrar-se ao varão e até tentar meter na mão da condutora, através da janela aberta por causa do calor sufocante, uma moeda de dez copeques. 
O comportamento do gato deixou Ivan tão estupefacto, que ele ficou parado, imóvel junto a uma mercearia, à esquina. E mais fortemente ainda o surpreendeu o comportamento da condutora. Esta mal viu o gato subir para o eléctrico, gritou, tão irada que até tremia:
– Gatos não! Não é permitido trazer gatos! Fora! Sai, ou chamo a polícia!
Nem a condutora, nem os passageiros pareciam surpreendidos com o essencial: não o facto de o gato subir para o eléctrico, o que seria apenas meia desgraça, mas o facto de ele querer pagar o bilhete. 
O gato mostrou ser um animal não apenas solvente, mas também disciplinado. Logo ao primeiro grito da condutora, ele interrompeu o seu avanço, desceu do estribo e sentou-se na paragem, alisando os bigodes com a moeda. Mas assim que a condutora puxou o cordão e o eléctrico se pôs em andamento, o gato procedeu como qualquer um que é expulso do eléctrico, mas que de qualquer modo precisa de chegar ao seu destino. Deixando passar o eléctrico e os dois atrelados, o gato saltou para a parte traseira do último atrelado, agarrou-se com a pata a um tubo de borracha que passava para o exterior, e lá foi, poupando assim os dez copeques.

Mikhail Bulgakov, Margarita e o Mestre

§

Primeiro amor
Adília Lopes

Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado os Pestíferos de Jaffa
resolvi assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele fina
devia ter uma letra muito melhor que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita

2 Respostas para “in our sleep

  1. sempre me impressiono quando leio algum poema da adília lopes. uma espécie de êxtase.

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