Please, don’t watch me dancing

São Paulo, segunda-feira, 27 de outubro de 2008, 23h06.

A Rua Augusta emana um cheiro desagradável, um misto de presunto azedo e fezes. Sacos pretos se amontoam ao redor dos postes de eletricidade. Restolhos da grande orgia do final de semana, das muitas caixas engorduradas de delivery, latas de cerveja, garrafas pet, papéis higiênicos cheios de merda seca. Uma senhora zelosa cata restos de bisnaguinhas em frente ao portão de uma escola pública. Cuidadosamente tira a sujeira mais grave de cada pão e os deposita um por um em uma sacola colorida de feira.

De madrugada o pessoal da coleta vai passar com seus alegres lixeiros vestidos de laranja, saltando das esquinas para o caminhão em movimento, se aventurando em meio a essa parcela de porcaria da cidade, vestindo suas luvas enormes, seus cabelos compridos presos num boné igualmente laranja. E você – que duas vezes por semana junta em saquinhos plásticos de supermercado os seus dejetinhos honestos, e os deixa no quartinho isolador de odores do seu prédio, estará deitado na sua cama, assistindo à alguma última edição jornalística do dia, coçando a virilha, pensando nas atividades da terça-feira.

Bem longe do fedor.

3 Respostas para “Please, don’t watch me dancing

  1. Lindo, nada menos.

  2. é a vida…

  3. nossa que profundo… e depressivel…

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