if it’s love that you want

ontem foi meu terceiro aniversário no verão e eu ainda não me habituei a isso; parece que são os festejos de outra pessoa. ainda não me habituei a essa nova identidade. lá no fundo ainda sou eu de conjuntinho de moletom me escondendo dos parabéns. mas mergulhei no mar, fechei ciclos, tive a companhia dos amores queridos e aprendi uma coisa nova aqui: “só faz falta quem está”. ganhei miminhos lindos, dentre eles um herberto cujo primeiro poema é um sopro de vida pra começar o novo ano:

ODE DO DESESPERADO

 A morte está agora diante de mim
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.

A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.

A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se à beira da embriaguez.

A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.

A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.

*

& como não poderia deixar de ser: uma playlist.

dharma

nas tardes de verão
quando o sol vai a pino
ela não quer andar muito
procura uma sombra
faz seu xixi e depois
levanta arrastando as patinhas
e vai cheirar os gatos ressabiados
e escondidos nos canteiros dos vizinhos;
nos cruzamos com um senhor
de fato e chapéu, sorridente
nem eu nem ela entendemos
como pode aquele senhor
de fato e chapéu andar tão sorridente
num calor destes
– é porque somos lindas, digo
ela me olha e pede pra voltar
não quer mais andar
enquanto o sol vai a pino
enquanto eu sonho com
as praias campestres e pergunto
se ela não quer ir comigo tomar
um banho de mar qualquer dia
mas ela me puxa pela trela
sobe as escadas correndo
esfrega o focinho nas paredes
e vai pra pedra da varanda
esfriar a barriga e acompanhar
o escandaloso farfalhar dos passarinhos
e quem sabe apanhar uma mosca
em pleno voo

polyglot

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“There is this one image of Germany, like you have white people speaking German, if you look at the TV landscape for example. Black people only appear as nurses, or cooks,” they said. “You don’t get to know people, this big part of Germany and Berlin, because they are kind of marginalized in media.”

suplementos

hoje comprei suplementos vitamínicos: óleo de onagra & ômega três. e também valeriana para os momentos de pico. dentre todas as suas benesses, são reguladores de humor. sempre tive uma tpm difícil com muito drama e depressão, mas nos últimos tempos tem sido pior. associo isso à condição de imigrante: estou mais fragilizada e portanto cinco vezes mais suscetível aos efeitos do período menstrual. a última tpm coincidiu com o final do semestre do mestrado; calhou e-xa-ta-men-te na semana da entrega dos trabalhos e contribuiu com a dificuldade em escrevê-los. mas o pior desse processo é que todos os meses, sem falta, questiono toda a minha existência até o ponto de exaustão. principalmente as amizades.

se eu puxar um fio condutor da minha vida consigo perceber com alguma facilidade porque é que sempre tenho questões (maioritariamente dramáticas) com amizades. dentre os motivos, o primeiro: sou filha caçula de cinco, a mais nova e, consequentemente, isolada dos demais. é o que a psicologia diz, que os mais novos chegam num ambiente já estabelecido e experimentam mais dificuldade na adaptação. e depois vem a história de mudar de cidade muitas vezes. lisboa já é a quarta cidade em que vivo. começar do zero com amigos é sempre complicado, porque, assim como no ponto anterior, a adaptação num ambiente com papéis já definidos é sempre mais custosa e mexe muito com a identidade. e o terceiro ponto é que sempre namorei e sempre me refugiei em namoros quando as amizades me irritavam apresentavam obstáculos. fico com a sensação de que nos momentos mais cruciais pra aprender a ser amiga, dar e receber amizade, eu estava enfiada nalgum lugar da minha cabeça fingindo que nada daquilo era comigo.

manter as amizades à distância é um ponto que, não sendo simples, pode acabar sendo dramático. as vidas vão seguindo, cada um cuidando da sua lá, eu da minha aqui. e o tempo passando brutalmente rápido. vou perdendo casamentos, aniversários, nascimentos, cortes de cabelo, novos trejeitos, gírias, e demais minúcias que preenchem os laços afetivos. e o fuso horário, internet ruim, correrias mil; são questões que na maior parte do tempo estão bem resolvidas, é escolha minha etc, assunto tratado. mas se isso já é problemático quando estamos na mesma cidade, com um oceano no meio acaba ficando doloroso e desencontrado. sinto que falho com meus amigos o tempo todo e sinto a falta deles o tempo todo.

saí do facebook por muitos meses e acabei voltando por causa de pesquisas que precisava fazer sobre comunidades online de imigrantes brasileiras em portugal (não que eu deva justificativas, mas, sim, estou me justificando) e percebi algumas coisas no processo: facebook não faz falta. mas faz muita falta. não gosto de concordar com o facebook, mas grande parte da sensação de preenchimento emocional na vida passa por sabermos o que os nossos amigos mais próximos estão fazendo. hoje, por exemplo, descobri que a minha prima usou o pinterest pra se inspirar na decoração da casa nova que ela comprou com o namorado. fiquei tão contente vendo todos aqueles pins e imaginando o que ela poderia ter escolhido pra compor aquele que vai ser o espaço de amor e troca entre os dois. e esse tipo de coisa nem sempre é especificada nas mensagens corridas pelo whatsapp. é uma forma sutil e poética de saber como ela vai indo e isso me dá mais alento do que dizermos que nos amamos a cada dois, três meses. mas há também o outro lado do facebook: ver as interações entre amigos e semi-amigos ou não-amigos e perceber como as pessoas são desavergonhadamente falsas e puxa-saco nas redes sociais. e como aquilo pode criar uma sensação falsa de presença que povoa meu frágil imaginário com histórias de como a vida das pessoas é melhor que a minha e todos se amam e se esqueceram de mim nessa terra abandonada por deus.

e há também aquela questão de irmandade, hoje em dia tão em voga nos feminismos online. vejo muita gente propagandear amor eterno à pessoas que conheceram na semana passada enquanto teciam mantos de sangue menstrual, mas na prática não são boas amigas. aquela máxima de que homem de amiga é sagrado já caiu por terra e foi remexida e ressignificada por uma onda individualista que assolou nossa sociedade nos últimos trinta anos e isso não faz bem pra ninguém. faltam dedos pra contar todas as vezes em que estive envolvida em (ou presenciei) histórias de mulheres que se desentenderam porque uma ou outra foi ser liberal no canteiro onde não devia. como perdi uma amiga de muitos anos que espero que esteja muito feliz lá com o rapaz agora (comentário sem mágoas porém com várias mágoas), tenho um entendimento sobre isso que é o seguinte: tesão é tesão, o que não funciona com um pode funcionar com outro, assim por diante, mas se as pessoas soubessem se comunicar, muito do drama seria evitado. eu, particularmente, poderia ser mais assertiva ou ter então entoado “vai tomar no cu, vai tomar no cu, bem no meio do seu cu” muitas vezes ao invés de fingir que sou descolada e não ligo e depois arrancar cracas de dermatite seborreica da minha cabeça com o formato da austrália.

e aqui chego num ponto que pra mim parece crucial: como sabemos o momento certo de verbalizar o que nos vai lá dentro? eu não sei, nunca soube. mas isso de estudos sobre as mulheres tem que me servir de alguma coisa na vida prática. acho que só assim consigo usar o que sei pelo bem dos outros. a segunda vaga do feminismo nos ensinou que nossos papéis sociais foram construídos, que o que importa é o que fazemos com o que foi feito de nós. uma das perspectivas da minha tese passa pelos estudos pós-coloniais e a necessidade de se “dar voz” ao subalterno. simplificando, a ideia de que ao contarem suas histórias, os povos colonizados podem reescrever a sua história enquanto povo oprimido e sair da posição de subalternos em relação ao colonizador. digo isto pra explicar que também no feminismo o “dar voz” existe com o mesmo propósito. que se temos voz é preciso nos fazer ouvir. é preciso discordar, peitar, abrir a boca e estabelecer novas dinâmicas e novos limites. a nossa história começa onde queremos que ela comece. e foi por isso que comprei os suplementos hoje, porque, com os humores e hormônios regulados, preciso aprender a contar a minha própria história. saber fruir dos meus amores e amizades já que, com todos os maravilhosos clichês contidos nessa frase, a vida é só uma. e pra isso preciso reconstruir as coisas que foram feitas de mim, me posicionar no lugar que é meu e onde eu quero estar. como diz a laura marling, I speak because I can.

sei lá, mil coisas

acabei de ler um artigo sobre procrastinação pra ver se compreendo por que eu não consigo cumprir prazos. descobri que não é só a questão do tempo que nos tira a capacidade de escrever, é também a recompensa e um ciclo vicioso de culpa, vergonha e ansiedade. quanto mais culpada e envergonhada e ansiosa, menos consigo escrever e assim por diante. tenho que entregar três trabalhos da faculdade de quinze a vinte páginas cada na próxima semana. cerca de trinta mil palavras. não sei qual deles devo priorizar, não consigo priorizar nenhum. não consigo escrever.

há dois anos, quando me mudei pra portugal, meu objetivo era largar tudo que me impedia de escrever em são paulo pra poder chegar aqui e estudar, aprender algumas coisas sobre escrita, me sentir livre pra escrever. e o que aconteceu foi o contrário, já que há uns seis meses decidi que ia desistir de vez de escrever. precisava me despir da expectativa de ser escritora; de fazer com que as pessoas acreditassem que eu sou uma escritora e depois viessem me cobrar se estou escrevendo ou não; de estabelecer relacionamentos com base na escrita e/ou alcance no mundo literário. acho o mundo literário um saco, não tenho a menor paciência pras maluquices ególatras de escritores (ou de jornalistas e agentes literários que querem ser escritores) e conversas sobre hubris e fofocas de quem comeu quem na feira literária do padre amaro. escrever é isso? isso eu não quero.

uma das coisas que me atormentou por um tempo foi a suposta necessidade e possível nicho profissional de escrever sobre a minha experiência em portugal. ser blogger de viagens, contar ao mundo os preciosos tesouros que encontrei nessa pequenina terra que muitos dizem estar localizada no cu da europa e que eu muitas vezes não discordo. mostrar as maravilhas de um belo país em que o tempo quase parou e slow living é hasthtag de instagram e não necessariamente mais uma crise num lugar já assolado que sempre caminhou lentamente mais por falta de pão do que por excesso de fado. minha formação em turismo com ênfase em planejamento sustentável me faz abominar o processo de venda de um lugar. transformar qualquer experiência que seja em produto mastigado de consumo é leviano pra mim. quanto mais as minhas. e nenhuma experiência de imigração é tão simples quanto um post num blog pretende mostrar.

aquele exercício que fazemos sempre que visitamos um lugar novo, “eu moraria aqui etc”, foi o que fiz na primeira vez que estive em portugal, um ano antes de me mudar pra cá. sentada no anfiteatro da gulbenkian me imaginei lendo e escrevendo, fazendo piqueniques, encontrando a iluminação. mas era só mais um exercício como fiz com madri, paris, berlim, buenos aires, rio de janeiro, curitiba e qualquer outra cidade que possivelmente já visitei. mas isso é parte do processo de deslocamento da nossa realidade, de nos imaginarmos em uma situação que não a nossa, de sonhar com uma vida nova e melhor. isso é uma diversão e uma danação pra mim, porque eu gosto muito de sonhar com vidas novas, e sempre me sinto na obrigação de arquitetar uma vida nova e depois sofro profundamente quando vejo que não vai ser possível naquele momento e que talvez nunca o seja. uma vida desse tamanho e eu nunca vou poder morar em buenos aires. temos pena. mas nessa loteria dos meus privilégios acabei por escolher lisboa. uma cidade pequena no cu da europa. era o que eu achava que precisava pra desintoxicar de são paulo, slow living. pra quem tem expectativas como as que eu tinha e um hábito de viver muito rápido e consumir experiências, lisboa esgota mais rápido ainda.

e eu esbarrei nas pessoas, muitas delas. como disse um conhecido alemão certa feita, “lisboa é linda mas está cheia de portugueses”. até engasguei com a minha cerveja e perguntei como ele tinha coragem de ser tão preconceituoso. eu tinha acabado de chegar a portugal, era verão, lindas praias, gente simpática, por que ele pensava assim? assumir racismo não é politicamente correto, ouvi dizer. mas é isso que fazemos sem perceber quase todos os dias quando imitamos o sotaque de alguém, contamos uma história especificando nacionalidades (como essa que acabei de contar) e ultrapassamos a delicada fronteira dos estereótipos. e olha, os portugueses são especialistas nisso de racismo, foi o que acabei por descobrir. vá lá que os brasileiros, mestres nessa arte, acham que portugueses são burros e têm padarias e bigodes. mas os portugueses acham que os brasileiros são malandros e as brasileiras são putas. poderia listar aqui a quantidade de vezes em que me sugeriram que eu deveria ter uma buceta mágica porque sou brasileira, mas não me apetece. passei muito tempo achando que era blindada desse preconceito por ter nacionalidade portuguesa (sou puta bigoduda!) e cheguei a pensar que deveria tentar me afastar desse discurso de ser brasileira sexualmente ativa pra não dar mais pano pra manga. o fato é: sou estatística. sendo isso ou aquilo, eu e qualquer mulher brasileira que por aqui passe estamos sujeitas a esse imaginário.

unindo alhos com bugalhos, minha tese de mestrado em estudos sobre as mulheres trata isso: mulheres brasileiras imigrantes em portugal. e com isso descobri que a sociologia tem pra mim o mesmo efeito da literatura, o de deslocar as coisas do particular pro universal, por particularizar o universal, por universalizar o particular. já escrevi sobre as relações entre brasileiros e portugueses e disse que preferia não entrar em pormenores porque o terreno era muito arenoso. mas passado um tempo percebo que é justamente pelo terreno ser arenoso que devemos nos enfiar nele, nem que seja pra atolar. tenho passado os últimos meses atolada em foucault, artigos e teses, chorando e rindo com a profundidade que essa história de racismo, xenofobia, sexismo, chame como quiser, tem nas existências e identidades de tantas pessoas. eu sou privilegiada, pude brincar de sonhar com uma vida nova e aos trancos e barrancos vou aprendendo a sobreviver num lugar quase sempre estéril seja pra brasileiros, seja pra portugueses e tantas outras pessoas de nacionalidades diversas que decidem tentar uma vida aqui no sol do sul.

escrever sobre isso é difícil porque sou sujeito e objeto da minha pesquisa. minha suposta buceta brasileira mágica me fez olhar pra mim mesma com outros olhos. é preciso tirar nossas caras dos nossos cus e olhar pra fora, perceber que o mundo vai além do nosso umbigo, e que as questões arenosas são tantas, e os instagrams fofinhos e as histórias lindas de amor e viagens acalentam o coração ao mesmo tempo que nos aprisionam. não é por ser difícil que temos que desistir. mas sei lá, mil coisas, o verão se avizinha, não tenho dinheiro pra viajar nem comprar biquínis (somente amêijoas e cervejas), sofro de procrastinação crônica e fiz uma playlist pra ouvir e dançar nesses dias quentes enquanto tento escrever meus trabalhos e sonhar com uma vida melhor pra todo mundo.

nenhuma morte é possível

No Sorriso Louco das Mães

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Hélder (1930 – 2015)

of being a woman vol. 02

Oddný Eir

Björk: I was really curious, after you heard my new album for the first time last night, how you felt its themes might mirror your new book?   

Oddný Eir: Similar desires and challenges appear in your lyrics and in my book, for sure. It has a lot to do with trust. Devotion and trust. I really felt my last three books were nurtured by our discussions over the years. Because we haven’t just been chatting about boys – well, that as well (laughs) – but we started at the moment of the financial crisis in Iceland and somehow I feel like we were in a personal crisis, as well. We were dealing with our relationships and we really wanted to make things right. So I made a diagram, just for fun, to visualise some of these dualities and the urge to overcome them.

Björk &  Oddný Eir, Dazed Digital

§

Jessa tattooed me; “Negative Impact on Public Health,” quoted from the 9th circuit’s decision to uphold Measure B. The catalyst for both my politics and my writing, under my skin. I think it’s important to remember—how I felt reading that ruling, that to parts of the world I and all sex workers will always be reduced to inhuman vectors of disease and societal ill.

Stoya, Graphic Descriptions

§

No noticiário, uma jornalista diz que a presidente da República dá trabalho e inventa muita coisa para o seu ministério porque não é casada nem tem filho para cuidar. A invisibilidade da regra aqui está na pressuposição de que existe um modelo a ser seguido, o da mulher dona de casa e mãe, cuja prioridade “normal” deve ser a família e os filhos. O trabalho, mesmo que seja a tarefa de presidir um país, estaria necessariamente em segundo lugar. Não por acaso, os ataques da oposição são xingamentos pessoais. Uma mulher – mesmo que seja presidente da República – está sempre exposta a essa violência por razões de gênero, para usar a expressão jurídica e me referir ao projeto de lei que acaba de tornar a violência contra a mulher um tipo de agravante no direito penal.

Carla Rodrigues, Blog do IMS

§

Quando você faz parte de um grupo cisgênero (se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento), você já sai no privilégio; então, é apenas natural ignorar as problemáticas de pessoas que não se encaixam no padrão. Enquanto isso, as estatísticas continuam a indicar que o Brasil segue em primeiro lugar no ranking de assassinatos de travestis e transexuais, que essas pessoas ainda são marginalizadas pelo fato de não conseguirem modificar seu nome sem passar pela justiça, sendo, consequentemente, excluídas de oportunidades de emprego, saúde e moradia.

Marie Declercq, VICE Brasil