trouble in mind

agosto é um mês estranho no verão. a vida parece que fica suspensa, como se isso fosse possível. é mais solitário e silencioso do que o normal. aqui no bairro os cafés, restaurantes, papelarias e até a mariazinha estão quase todos fechados. o calor fica ainda mais sufocante e as plantas vão secando na varanda. estou acostumada a ter calor o ano inteiro, uns meses mais moderados que os outros, mas é algo distribuído. aqui, não. é concentrado em três meses, dos quais é preciso viver o verão intensamente porque o resto do ano vai fazer frio e chover, chover. mas quando chega agosto eu já estou cansada do verão, da obrigação de ser feliz no verão, de ter que tirar férias no verão. não tenho dinheiro pra tirar férias.

fazem vinte e quatro horas que não falo nada em voz alta. passo os dias quentes a traduzir muitas palavras que não fazem nenhum sentido, no fim do dia não me sobra energia pra ler ou escrever as palavras que fazem. nem falar. nem com as andorinhas e gaivotas que chegam com o cair da tarde. penso na serventia deste blog e na teoria do iceberg do hemingway. sinto vontade de passar os três meses do verão numa casa de praia rústica e afastada, esquecida pelo turismo, lendo hemingway, mergulhando pra encontrar o começo dos icebergs. aí sim, poderia dizer que o verão europeu é incrível e meu sonho dourado de europa se concretizou.

if it’s love that you want

ontem foi meu terceiro aniversário no verão e eu ainda não me habituei a isso; parece que são os festejos de outra pessoa. ainda não me habituei a essa nova identidade. lá no fundo ainda sou eu de conjuntinho de moletom me escondendo dos parabéns. mas mergulhei no mar, fechei ciclos, tive a companhia dos amores queridos e aprendi uma coisa nova aqui: “só faz falta quem está”. ganhei miminhos lindos, dentre eles um herberto cujo primeiro poema é um sopro de vida pra começar o novo ano:

ODE DO DESESPERADO

 A morte está agora diante de mim
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.

A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.

A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se à beira da embriaguez.

A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.

A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.

*

& como não poderia deixar de ser: uma playlist.

dharma

nas tardes de verão
quando o sol vai a pino
ela não quer andar muito
procura uma sombra
faz seu xixi e depois
levanta arrastando as patinhas
e vai cheirar os gatos ressabiados
e escondidos nos canteiros dos vizinhos;
nos cruzamos com um senhor
de fato e chapéu, sorridente
nem eu nem ela entendemos
como pode aquele senhor
de fato e chapéu andar tão sorridente
num calor destes
– é porque somos lindas, digo
ela me olha e pede pra voltar
não quer mais andar
enquanto o sol vai a pino
enquanto eu sonho com
as praias campestres e pergunto
se ela não quer ir comigo tomar
um banho de mar qualquer dia
mas ela me puxa pela trela
sobe as escadas correndo
esfrega o focinho nas paredes
e vai pra pedra da varanda
esfriar a barriga e acompanhar
o escandaloso farfalhar dos passarinhos
e quem sabe apanhar uma mosca
em pleno voo

polyglot

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“There is this one image of Germany, like you have white people speaking German, if you look at the TV landscape for example. Black people only appear as nurses, or cooks,” they said. “You don’t get to know people, this big part of Germany and Berlin, because they are kind of marginalized in media.”

nenhuma morte é possível

No Sorriso Louco das Mães

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.

Herberto Hélder (1930 – 2015)

of being a woman vol. 02

Oddný Eir

Björk: I was really curious, after you heard my new album for the first time last night, how you felt its themes might mirror your new book?   

Oddný Eir: Similar desires and challenges appear in your lyrics and in my book, for sure. It has a lot to do with trust. Devotion and trust. I really felt my last three books were nurtured by our discussions over the years. Because we haven’t just been chatting about boys – well, that as well (laughs) – but we started at the moment of the financial crisis in Iceland and somehow I feel like we were in a personal crisis, as well. We were dealing with our relationships and we really wanted to make things right. So I made a diagram, just for fun, to visualise some of these dualities and the urge to overcome them.

Björk &  Oddný Eir, Dazed Digital

§

Jessa tattooed me; “Negative Impact on Public Health,” quoted from the 9th circuit’s decision to uphold Measure B. The catalyst for both my politics and my writing, under my skin. I think it’s important to remember—how I felt reading that ruling, that to parts of the world I and all sex workers will always be reduced to inhuman vectors of disease and societal ill.

Stoya, Graphic Descriptions

§

No noticiário, uma jornalista diz que a presidente da República dá trabalho e inventa muita coisa para o seu ministério porque não é casada nem tem filho para cuidar. A invisibilidade da regra aqui está na pressuposição de que existe um modelo a ser seguido, o da mulher dona de casa e mãe, cuja prioridade “normal” deve ser a família e os filhos. O trabalho, mesmo que seja a tarefa de presidir um país, estaria necessariamente em segundo lugar. Não por acaso, os ataques da oposição são xingamentos pessoais. Uma mulher – mesmo que seja presidente da República – está sempre exposta a essa violência por razões de gênero, para usar a expressão jurídica e me referir ao projeto de lei que acaba de tornar a violência contra a mulher um tipo de agravante no direito penal.

Carla Rodrigues, Blog do IMS

§

Quando você faz parte de um grupo cisgênero (se identifica com o gênero que lhe foi atribuído no nascimento), você já sai no privilégio; então, é apenas natural ignorar as problemáticas de pessoas que não se encaixam no padrão. Enquanto isso, as estatísticas continuam a indicar que o Brasil segue em primeiro lugar no ranking de assassinatos de travestis e transexuais, que essas pessoas ainda são marginalizadas pelo fato de não conseguirem modificar seu nome sem passar pela justiça, sendo, consequentemente, excluídas de oportunidades de emprego, saúde e moradia.

Marie Declercq, VICE Brasil

of being a woman vol. 01

anna_big

You Will Hear Thunder

You will hear thunder and remember me,
And think: she wanted storms. The rim
Of the sky will be the colour of hard crimson,
And your heart, as it was then, will be on fire.

That day in Moscow, it will all come true,
when, for the last time, I take my leave,
And hasten to the heights that I have longed for,
Leaving my shadow still to be with you.

 Anna Akhmatova

§

 It occurred to me as I was unloading the dishwasher, flipping fish fingers under the grill, and placating my son with an episode of Thomas the Tank Engine while he beat his tiny toddler fists upon the high chair in a Mariah-sized fit of pique. I’m happy. I enjoy being the boss of this boring scene of domesticity. Forgive me Betty Friedan, but I love being a housewife.

Chitra Ramaswamy, The Guardian

§

At least one in four women in America now takes a psychiatric medication, compared with one in seven men. Women are nearly twice as likely to receive a diagnosis of depression or anxiety disorder than men are. For many women, these drugs greatly improve their lives. But for others they aren’t necessary. The increase in prescriptions for psychiatric medications, often by doctors in other specialties, is creating a new normal, encouraging more women to seek chemical assistance. Whether a woman needs these drugs should be a medical decision, not a response to peer pressure and consumerism.

Julie Holland, The New York Times

§

Mas a opressão ainda mostra um fôlego estarrecedor. Dados da Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, do órgão federal Secretaria de Políticas para as Mulheres, alertam que as denúncias de violência sexual no Brasil aumentaram mais de 40% no ano passado em relação a 2013, com o estupro no topo das acusações. E tem mais: em 81% dos casos, os autores das agressões são pessoas próximas da vítima e com algum vínculo afetivo. Sabe aquela história de ninguém meter a colher em briga de marido e mulher? Pois é. E muitas ainda acabam em morte.

Mariana Tramontina, UOL Tab