vida de marmita

hoje quando saía do trabalho tentei salvar um gato. ele era muito magrinho, tinha o pelo preto todo encardidinho e estava desorientado quase sendo pego pelos carros no cruzamento. talvez já tivesse sido atropelado quando o vimos. hesitei e pensei ‘os gatos sabem de si’, fui indo embora. vi que ele tinha qualquer coisa a sair pela boca e voltei, fui correndo atrás dele desembestada pela rua. buzinaço, seis da tarde, vamos embora, que se foda o gato, minha senhora. e ele magrinho, desesperado, só queria chegar ao seu canteirinho. na rua dos fundos há um canteiro onde colocam comida e água sob uns arbustos e vivem ali uns gatinhos rafeiros muito fofinhos e feinhos. ele miava e chamava os amigos que se escondiam atrás de um muro com o receio felino de se aproximar. os transeuntes ignoravam o circo porque na outra esquina já vinha chegando o autocarro e na hora de ponta toda gente quer ir embora logo pras suas casas, preparar a janta e a marmita, ver o benfica, quem é que se importa com um gato magrelo sem dono? ele por fim conseguiu chegar ao seu cantinho e ficou lá encolhido à espera da sua turma, que possivelmente só poderia oferecer conforto para os momentos de dor e talvez morte. fui indo embora com os passos lentos e tristes, apanhei o autocarro seguinte. consegui me sentar. vim ouvindo um podcast e pensando sobre vidas precárias, as nossas e a dos gatos. vi o benfica. não fiz a janta e nem preparei a marmita.

califórnia goiabada

hoje comprei uma única goiaba que sozinha me custou 1€. é o mês dos frutos exóticos no pingo doce; as goiabas são caras porque vieram do brasil ou da colômbia, essas regiões exóticas. eu & a goiaba somos portanto exóticas. o frio está lentamente indo embora, as ruas estão cheias de turistas animados com a graça dos azulejos portugueses, um brasileiro berra ‘se vira nos 30’ na porta do café dos mitras aqui da rua. quando saímos do brasil só levamos na mala os nossos clichês? cheguei em casa e guardei as compras todas; deixei a goiaba por último. o cheiro da goiaba me lembra da infância, da goiabeira do rancho, dos bichos nas goiabas, da minha família, das coisas que já não podem ser. choro um pouquinho. segundo o javier marías em seu esplendoroso enamoramientos, luisa alday não quer se refugiar nos momentos felizes que viveu com o marido recém-morto porque a lembrança boa vem seguida da noção da sua morte: “sempre que me lembro de algo bom, no mesmo instante me aparece a imagem última, a da sua morte gratuita e cruel, tão facilmente evitável, tão parva. sim, é o que me faz pior: tão sem culpado e tão parva. e as recordações turvam-se e tornam-se más. na realidade já não me resta nenhuma boa. todas se me revelam ilusórias. todas se contaminaram”.

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fiz uma playlist de primavera:

and it pains me to say, I was wrong

love is not a symptom of time
time is just a symptom of love

and suddenly we’re in love with everything

não acho que nem eu nem ninguém não sejamos capazes de escrever. basta saber juntar letras, basta ter tempo, basta ter um espaço, uma mesinha, sosseguinho, uma noite bem dormida, duas xícaras de café, uma de chá, o coração organizado, as compras feitas, as contas pagas, as mensagens respondidas, a barriga alimentada de modos que não esteja cheia a ponto de dar sono e nem vazia a ponto de tirar a concentração. quando essas coisas estão todas aí em ordem podemos pensar em escrever, mas principalmente quando estivermos seguras para além da sobrevivência, falo também daquela segurança de que podemos transformar nossas vivências em frases bonitas, mas precisamos viver pra ter vivências e pra viver precisamos ter trabalho & dinheiro e noites de sono mais ou menos bem dormidas, alguns orgasmos intensos que nos colocam naquele prazeroso limiar entre a vida e a mortezinha. aguentar os dias longos & curtos e os amigos que querem notícias, os folgados que querem dicas e não agradecem, os ex-amantes que sentem a nossa falta, sem saber bem do quê. sem perder tempo ouvindo os novos discos todos, vamos ouvindo os antigos, aqueles que funcionam como diário, que nos recontam quem a gente era há tantos anos, que nos lembram que vivemos em espiral e naquela época éramos assim e sentíamos aquilo e daí finalizamos um ciclo e começamos outro e eles são todos iguais, porque todos eles nos contêm. vamos acompanhando o passar do dia pela posição e a cor da luz no telhado do prédio ao lado e devagarinho vamos escrevendo romances ou poemas ruins ou posts no facebook ou então aquela coisa esquisita que é mandar áudios no whatsapp contando toda a nossa vida nas últimas trinta e cinco semanas só pra depois nos criticarem o sotaque todo misturado que a vida nos presenteia quando mudamos de cidade, de país, quando trocamos de pele e aprendemos a ser cada dia mais quem a gente quer. e, no fim, quem sabe sobra um tempinho, um descanso, a cabeça consegue juntar as letras, formar as palavras e contar umas historinhas desconexas e cansadas, escrever meia dúzia de coisas, ir escrevendo sem escrever, amanhã talvez sai, ou então na semana que vem?

sono de inverno

vim a descobrir que fevereiro é o mês mais difícil & longo do inverno no hemisfério norte. é quando já não se aguenta mais o frio e todo o condicionamento que ele provoca, é quando chove mais, é quando acontece o carnaval no brasil, é quando a vida nos força a uma revisão que não necessariamente queremos fazer.

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ontem vimos o sono de inverno e (felizmente) me é impossível não ver os filmes com olhos feministas. basicamente: um homem que se sente no direito de julgar e manipular todos ao seu redor, um ex-ator que acredita que, na representação de seus altos valores morais e éticos, vai encontrar a grande verdade. fruto de uma sociedade que permite ao homem atingir esse patamar, que o dá esse direito. desde domar um cavalo selvagem para fins decorativos, passando por desconsiderar a vida de um inquilino e sua família, fazer troça de um professor que aponta suas inconsistências éticas, até humilhar a irmã e a esposa, ambas a quem ele sente que as suas verdades serão uma espécie de salvação. nada de novo no front. muito cansaço no front. no fim ele liberta o cavalo, mas não liberta a esposa, personificando todo o mal que ele acredita combater.

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zapeando vi um trecho de annie hall, filme que já considerei como um dos mais bonitos do woody allen, só perdendo pra manhattan. que alívio eu sinto ao ver, com as minhas lentes ajustadas, que woody allen é um arquétipo de homem tão nocivo como os personagens de philip roth (bem lembrado pelo episódio mais recente de girls). quanto tempo passamos acreditando nesse tipo de homem inseguro, egoísta e mesquinho, que cativa as mulheres com um tal humor auto-depreciativo, suga todas as nossas energias e depois vai embora em busca da próxima. esse tipo de libertação é impagável.

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li por aí, sem contexto ou citação, que uma mulher no auge de sua vida fértil não consegue dedicar tempo nenhum a nada que não seja ter filhos, tendo-os ou não. isto talvez justifique a minha falta de energia para ler, escrever ou pensar, além dos sonhos com gravidez e bebês fofinhos mamando em mim. mas talvez seja só o sono de inverno, esse modo de viver que requer muita energia pras tarefas mais simples como levantar da cama, comer e me lavar.

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ver de onde eu venho

nossa casa cheira a móveis novos & lavanda.

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me apaixonei pela sua alegria. uma pessoa verdadeiramente alegre em portugal é algo raro, precioso e deve ser cultivado com muito amor & carinho. alegria floresce, é contagiosa, faz um apartamento de 35 metros quadrados ter 350. assim como os orgasmos de uma mulher, alegria em portugal é rebeldia.

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Just sweep away the dust from the mirror
We’re walking hand in hand on the warm white sands

noutro tempo, noutra configuração

passei uns seis meses antes de me mudar pra portugal ouvindo toda a discografia do b fachada e sonhando como seria a minha vida aqui. o que descobri depois que cheguei é que não conseguia mais ouvir nada dele, até perdi uns 03 ou 04 shows. o último deles desisti faltando 15 min pra começar. num outro ouvi de longe, mas preferi buscar cerveja e fazer xixi num bar na rua da alfândega. também teve um dia que cheguei atrasada e o show já tinha acabado e ele ia lá estacionando o carro vintage no largo do intendente pra buscar a família e ir embora. fiz um comentário debochado e fui buscar uma cerveja. acho que parte do meu descaso tem a ver com coisas que me disseram quando cheguei, sobre ele ser hipster ou qualquer coisa assim. não me incomodava com o fato dele ser hipster, até porque na altura eu nem sabia muito sobre as particularidades de um hipster tuga. mas calei e assenti porque queria fazer amigos e quando a gente é estrangeiro vive sempre num estado de alerta com medo de falar o que realmente pensa, principalmente no começo. o outro motivo é que os seis meses que passei ouvindo os discos dele todos os dias me fizeram criar um portugal imaginário; um lugar onde eu tinha amigos novos e encantava todos com o meu charme & irreverência de pessoa latinamericana porém cosmopolita, inteligente etc. no meu portugal imaginário eu passeava de shortinhos curtos pelas ruas lisboetas sem nunca escorregar nos ladrilhos da calçada portuguesa e absorvia séculos de cultura & arte por osmose enquanto transcendia meus medos provincianos & traumas emocionais e me transformava num ser de luz que todos amavam e admiravam. hoje ouvi uns dois discos dele. quando “sozinho no róque” começou a tocar me vi no antigo apartamento em são paulo, na minha janela com vista pras obras do shopping paulista, uma vida tão distante de mim. hoje a minha ideia de brasil & portugal já é outra, o olhar é de quem carrega em si dois mundos. as origens brasileiras fundidas nas portuguesas. uma história que começou aqui e foi pra lá com o meu avô, voltou pra cá comigo e eu nem nunca tive coragem de ir ver a casa onde ele nasceu. tenho agora um corpo nômade que deixou de ter raízes fincadas, mas que sente uma falta danada das noites quentes estreladas e sem vento lá do sul de minas; o barulho das cigarras, dos grilos, de um cão ou outro que latia, do reclame do jornal na televisão, o cheiro de capim & saudade.