espelho

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Francesca Woodman, A Woman. A Mirror. A Woman is a Mirror for a Man, Providence, Rhode Island, 1975–1978

tristeza não tem fim

How would you explain what Sad Girl Theory is?

Audrey Wollen: Sad Girl Theory proposes that the sadness of girls should be recognised as an act of resistance. Political protest is usually defined in masculine terms – as something external and often violent, a demonstration in the streets, a riot, an occupation of space. But I think that this limited spectrum of activism excludes a whole history of girls who have used their sorrow and their self-destruction to disrupt systems of domination. Girls’ sadness is not passive, self-involved or shallow; it is a gesture of liberation, it is articulate and informed, it is a way of reclaiming agency over our bodies, identities, and lives.

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letra aberta

dei de voltar a ler poesia. tenho essas fases com a poesia, às vezes preciso de um respiro porque não sinto que tenho a capacidade de me deslocar. às vezes só não quero puxar novelos. há uns meses comprei o último livro do herberto, mas nunca passei do primeiro poema. hoje abri uma página aleatória:

quem é que está continuamente a salvar-me
– de que medo, de que perigo, de que desastre?
mas só quando não me perco é que me afundo
na primeira água de onde venho,
no sal primeiro de onde venho,
e chego a este pouco onde – tão pouco! – me começo e
                                                               me acabo e me salvo

e então vamos deixando o novelo se desenrolar sabendo que ele nunca vai poder voltar a ser enrolado na perfeição porque abrir um livro do herberto é sempre um perigo. nada nunca tem fim, tudo sempre tem fim.

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stars

isso de feminismo ainda vai acabar nos afogando – era o que eu queria dizer no facebook quando vejo o que as picuinhas fizeram daquele fórum em potencial. lutamos por uma causa ou por nós mesmas? estamos tão machucadas que só o que conseguimos fazer é nos machucar ainda mais?

passei muitos meses fora do facebook e voltei por causa do feminismo, porque queria encontrar pessoas pra conversar sobre o tema, pra aprender. onde eu buscava diálogo e acolhimento encontrei um mar de egos doloridos. voltei pra estaca zero, sigo cuidando das minhas feridas sozinha.

não acredito em irmandade, em sororidade, em combater uma ideia com outra que segue uma lógica idêntica em caminho oposto. mas acredito em estrelas. i wish i had the voice of everything.

vida de marmita

hoje quando saía do trabalho tentei salvar um gato. ele era muito magrinho, tinha o pelo preto todo encardidinho e estava desorientado quase sendo pego pelos carros no cruzamento. talvez já tivesse sido atropelado quando o vimos. hesitei e pensei ‘os gatos sabem de si’, fui indo embora. vi que ele tinha qualquer coisa a sair pela boca e voltei, fui correndo atrás dele desembestada pela rua. buzinaço, seis da tarde, vamos embora, que se foda o gato, minha senhora. e ele magrinho, desesperado, só queria chegar ao seu canteirinho. na rua dos fundos há um canteiro onde colocam comida e água sob uns arbustos e vivem ali uns gatinhos rafeiros muito fofinhos e feinhos. ele miava e chamava os amigos que se escondiam atrás de um muro com o receio felino de se aproximar. os transeuntes ignoravam o circo porque na outra esquina já vinha chegando o autocarro e na hora de ponta toda gente quer ir embora logo pras suas casas, preparar a janta e a marmita, ver o benfica, quem é que se importa com um gato magrelo sem dono? ele por fim conseguiu chegar ao seu cantinho e ficou lá encolhido à espera da sua turma, que possivelmente só poderia oferecer conforto para os momentos de dor e talvez morte. fui indo embora com os passos lentos e tristes, apanhei o autocarro seguinte. consegui me sentar. vim ouvindo um podcast e pensando sobre vidas precárias, as nossas e a dos gatos. vi o benfica. não fiz a janta e nem preparei a marmita.

califórnia goiabada

hoje comprei uma única goiaba que sozinha me custou 1€. é o mês dos frutos exóticos no pingo doce; as goiabas são caras porque vieram do brasil ou da colômbia, essas regiões exóticas. eu & a goiaba somos portanto exóticas. o frio está lentamente indo embora, as ruas estão cheias de turistas animados com a graça dos azulejos portugueses, um brasileiro berra ‘se vira nos 30’ na porta do café dos mitras aqui da rua. quando saímos do brasil só levamos na mala os nossos clichês? cheguei em casa e guardei as compras todas; deixei a goiaba por último. o cheiro da goiaba me lembra da infância, da goiabeira do rancho, dos bichos nas goiabas, da minha família, das coisas que já não podem ser. choro um pouquinho. segundo o javier marías em seu esplendoroso enamoramientos, luisa alday não quer se refugiar nos momentos felizes que viveu com o marido recém-morto porque a lembrança boa vem seguida da noção da sua morte: “sempre que me lembro de algo bom, no mesmo instante me aparece a imagem última, a da sua morte gratuita e cruel, tão facilmente evitável, tão parva. sim, é o que me faz pior: tão sem culpado e tão parva. e as recordações turvam-se e tornam-se más. na realidade já não me resta nenhuma boa. todas se me revelam ilusórias. todas se contaminaram”.

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fiz uma playlist de primavera:

and it pains me to say, I was wrong

love is not a symptom of time
time is just a symptom of love