Muito se debate a importância das oficinas literárias na vida de um jovem escritor. Pois bem, eu, do alto dos meus _ _ anos, sou jovem com louvor e, mesmo sem um único livro publicado, me considero escritora. Passeando pela grande rede, caí em um link* (pode clicar, vai com fé) cujo mote é: “Dez motivos para um escritor iniciante cursar uma (boa) oficina literária”. Não pretendo me aprofundar na discussão, não, que sou gente humilde, nunca li Beckett ou Joyce, minha única experiência com uma oficina foi frustrada, abandonei a classe na segunda aula por uma questão muito simples da mais pura pirraça. Portanto não posso sair por aí me refestelando nos sofás alheios e palpitando aleatoriamente sobre a cor da sua mobília. Com a cabeça bem baixa, à la Charlie Brown, gostaria só de chamar a atenção para um ponto do post em questão:
5. Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror.
Eu lá não sei muita coisa, não, mas aprendi muito bem aprendido, de tanto ouvir minha mãe, sábia bibliotecária com duas aposentadorias na bagagem, dizer a seguinte frase: “Vergonha nessa vida é matar e roubar”. Sou a favor de um blog gratuito, ou de um livro pago com o próprio dinheiro suado, sim, por que não? O importante é dar a cara à tapa, mesmo que só amigos leiam e elogiem. Eu mesma tenho aí – à disposição de quem tiver tempo livre – um vasto arquivo de textos que não me orgulho muito, alguns eu gostaria de apagar, fazer sumir da face da internet. De outros eu gosto bastante, mesmo que contenham erros gramaticais e pobrezas do gênero. Digo que cada texto foi uma caminhada até aqui, onde estou agora – lugar que não sei bem qual é, diga-se de passagem. Mas imagino que minha escrita tenha melhorado um gole.
Quem realmente tem interesse na dura vida literária não vai se bastar somente de um blog. Vai buscar mais fontes. Mais importante, quem quer virar escritor de carteirinha, há de ler muito (nem todo sublinhado na internet é um hiperlink, veja bem). Não precisa também sair dando buscas em tudo quanto é lista de livros imprescindíveis na formação de um jovem escritor. O processo da leitura – na minha opinião humilde que não vale vintém – deve ser como quando nos apaixonamos. Um primeiro olhar de curiosidade, seguido de um reconhecimento de terreno. Um entendimento mútuo. Nos queremos? Pois então vamos cair pro abraço. A partir daí é só alegria. Cada palavra bem colocada em cada frase de cada parágrafo se transforma em um grande deleite aos olhos, um arrepio na nuca, um frio na espinha. Rabiscar um livro todo com pensamentos soltos, riscar trechos, dobrar pontinhas de páginas, deixar suas marcas naquele que te deixa marcas também. Tesão. Tudo isso, de preferência, se o livro for seu, que rasurar livro alheio costuma causar discórdia entre as gentes.
Querem um exemplo? Leiam o trecho inicial de Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado, grande bardo da nossa língua pátria:
Já que pergunta com tanta delicadeza, eu lhe digo, seu moço: desgraça só carece começar. Começou, não há quem segure, se alastra, se desenvolve, produto barato, de vasto consumo. Alegria, ao contrário, meu liga, é planta sestrosa, de amanho difícil, de sombra pequena, de pouco durar, não se dando bem nem ao sol, nem à chuva, nem ao vento geral, exigindo trato diário e terreno adubado, nem seco nem úmido, cultivo caro, para gente rica, montada em dinheiro. Alegria se conserva em champanha; cachaça só consola desgraça, quando consola. Desgraça é pé de pau resistente; muda enfiada no chão não demanda cuidado, cresce sozinha, frondosa, em todo caminho se encontra. Em terreiro de pobre, compadre, desgraça dá de abastança, não se vê outra planta. Se o cujo não tem a pele curtida e o lombo calejado, calos por fora e por dentro, não adianta se pegar com os encantados, não há ebó que dê jeito. Lhe digo mais uma coisa, meu chapa, e não é para me gabar nem para louvar a força dos pés-rapados mas por ser a pura verdade: só mesmo o povo pobre possui raça e peito para arcar com tanta desgraça e seguir vivendo. Tendo dito e não sendo contestado, agora pergunto eu: que lhe interessa, seu mano, saber das mal-aventuras de Tereza Batista? Por acaso pode remediar acontecidos passados?
Torço para que cada um que tenha lido esse pequeno trecho tenha sido arrebatado como eu fui, e que corra para o sebo ou livraria ou biblioteca mais próximos, continue a leitura, se delicie e goze bastante. Vá às alturas, que se literatura não é uma relação carnal, de pele, de cheiro e de gosto, então, meus caros, eu não sei de nada, mesmo.
*ao dono do post: se por algum acaso dos sistemas de pingback chegar até aqui, por favor, não se zangue comigo, não é nada pessoal.