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Entries from August 2009

Venice

August 28, 2009 · 5 Comments

Acho que foi o cansaço que bateu, talvez. Pode ser o tempo, o esquecimento, a vida, mil coisas. O fato é que as histórias românticas perderam o espaço no mundo, ninguém mais quer viver um épico. Escrever cartas e sofrer por amor. Viajar quilômetros em estradas empoeiradas, consumidos por uma ânsia sem cura, clamando pela pessoa amada, lutando, vendo as tripas se embolarem lá dentro, sem chance de recuperação. Agora é tudo meio simples demais, fraco, inssoso. Os corações estão batendo em nome de soluções, causas, dinheiro no banco. Disque-romance. As pessoas parecem ter medo, o cinismo tomou conta. Romeu e Julieta são só mais uma história, um conto da carochinha, esquecidos na cidade que afunda. O amor vai junto com Veneza e ninguém mais quer escrever músicas românticas pra depois cantá-las a plenos pulmões. Como era mesmo a letra que sempre achamos brega e sempre soubemos cantar?

“Eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir
Ter você é meu desejo de viver
Sou menino e teu amor é que me faz crescer
E me entrego corpo e alma pra você”


E daí que amar é cafona? Divirtam-se no fim de semana.

Categories: Love Love Love
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Time warp

August 16, 2009 · 13 Comments

Pego ônibus todos os dias e vivo a me perguntar se é possível uma existência sem tanto medo de tudo. Em alguns dias os medos que me tomam o tempo de leitura são insignificantes, bobos, infantis, falíveis. Olho os prédios em movimento, tenho pavor de perder a bolsinha de maquiagem importada, de não pagar contas por falta de fundos, ter o nome pintado de vermelho em monitores de computadores alheios e virar uma pária, não poder abrir um crediário, conta em banco, comprar sapatos, acabar na cadeia, etc. Ou, até mesmo, medo de ser sincera com os amigos, ser taxada de chata quando manifesto um desacordo, afinal, ninguém quer ser taxado de chato nessa vida. Mas em outros dias me vejo tomada por um medo que transcende o próprio medo, e esse medo além do medo eu digo que é pânico. Meu maior pânico é a solidão. Transito em ambientes cheios, lotados, entupidos até a tampa. Moro na terceira maior cidade do mundo, o que mais tem aqui é gente e eu acordo me sentindo sozinha e só consigo pensar na minha mãe tendo que me acompanhar até a sala de aula da Tia Mônica no Jardim III enquanto eu me descabelava em desespero segurando a pastinha verde com meu nome na etiqueta encapada. Meus olhos se enchem d’água enquanto os passageiros entram e saem no ponto do Hospital das Clínicas, com seus fedores, doenças e desamores. Penso no obituário e nas pessoas que morrem sozinhas e imagino meu nome lá, seguido de um texto enxuto: Morreu aos 90 anos, solteira. Deixa irmãos e sobrinhos.

Categories: rotina

Página 32

August 4, 2009 · 2 Comments

(…) eu me exalto e me estimulo quando renuncio ao enorme peso de uma lógica implacável. Obrigo-me a girar leve como um pião para aplacar a lucidez e incitar o delírio, para escutar minha intuição.”

Anaïs Nin – Incesto

Categories: Puisia