Já me despedi de tantos amores, tantas vezes, parece que nunca entendi a serventia desse ritual. Olho para o telefone e me pergunto se alguém me atenderia a essa hora da manhã, eu chorando e dizendo que estou morrendo, acometida por dores profundas em lugares desconhecidos. É o tipo de dor que causa morte, tenho certeza. Não existe viva alma que vá desevendar a origem dessa minha enfermidade. Penso que talvez você faça uma vaga idéia. Não tenho ao menos dinheiro trocado ou folha avulsa de cheque pra chamar um táxi que me leve ao hospital. Chamar uma ambulância e dizer o quê? Oi, moça, tá doendo, me busca aqui? Então acredito que vou morrer nos próximos dez minutos e nem vale a pena avisar ninguém. Era você quem estava comigo praticamente todas as noites. Eu preparando algum jantar e você no computador ouvindo qualquer coisa enquanto tomávamos uma cerveja de boca larga nas taças que compramos juntos na terceira vez que fui na sua casa. E depois assistíamos a um filme, eu sempre dormia no meio, às vezes quase no final. Em alguns dias trepávamos sonolentos. Você dormia como um bebê, de costas pra mim e eu, insone, só conseguia observar as pintinhas na curva entre seu ombro e pescoço e suspirar, pensando no que fazer com tantos sentimentos pairando nos travesseiros. Pois, agora, aqui sozinha – digo, agora que estamos aqui, eu e a dor, acabo de assistir um filme até o final, veja só. E com os créditos, uma música do Coldplay. Eu sei que você odeia Coldplay. Eu não ligo a mínima pro Coldplay. Todo fim de amor é brega, como Coldplay. Meus olhos se umedecem e eu tento com força não chorar ouvindo uma música assim tão ruim, que nem nossa era. Não consigo. Um resto de maquiagem escorre pelo rosto deixando o espetáculo ainda mais circense. Por uma fração de segundo, revivo essas cenas específicas da nossa vida juntos que jamais consideramos mencionar em qualquer circunstância. Decido ignorar a dor, o choro, a banda medíocre, a vontade de telefonar. Em vão. Esse tipo de tentativa, na verdade, só me incita a pensar e me torturar mais ainda. Foi quando – com toques de masoquismo – te visualizei com outra pessoa, na sua cama, ou na rua, jantando, se permitindo encantar por alguém como se encantou por mim. Começando uma nova história, conhecendo algum corpo novo. Brincando de ser deus com a vida de outra pessoa. Isso machuca, dói, como nunca doeu – ou certamente doeu e eu talvez não me lembre, tão cega que estou. Eu não quero me despedir de você. Não de você.
3 responses so far ↓
Helinho // May 12, 2009 at 4:36 pm |
Lindo texto.
charlotte // May 12, 2009 at 5:11 pm |
:(
Letícia // May 18, 2009 at 5:18 pm |
muito lindo o texto.