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Entries from May 2009

Missivas não-terminadas e não-enviadas – vol. 12

May 21, 2009 · 4 Comments

As coisas por aqui vão normais, como sempre foram. Mamãe vai bem, Papai também. Essa noite perdi o sono e pensei em te escrever qualquer coisa, pensei em me levantar e despejar tudo no papel, mas acabei dormindo e me esqueci de tudo que pensei. Mas e aí? E aí que eu já mencionei o entupimento do meu banheiro. E aí que ele prossegue entupido na vida, mais uma cruz a se carregar e etc. O que acontece é o seguinte: como sabemos, eu moro num prédio de 1932, onde tudo entope, tudo mofa, as paredes esfarinham e os vizinhos de cima dançam tango toda noite. E bem no meio do banheiro tem um ralo, que fica embaixo da máquina de lavar, e que está diretamente ligado aos canos da banheira e da torneira. Em algum momento entre a banheira e o ralo, um coágulo se formou. A água que deveria escoar pelos canos afora e seguir seu curso até o mar, volta por debaixo da máquina, alagando praticamente toda a superfície da minha casa, formando uma cena digna de filme de naufrágio de navio. Pergunto-me onde estarão os botes e os coletes salva-vidas. A situação já vem vindo caótica há uns dois meses, mais ou menos. A torneira que vazava constantemente já foi arrumada por um amigo com um pedaço de havaianas vintage – aquela azul e branca, que comprei quando da grande reforma inacabada do apartamento. O que um dia foi uma elegante casa de banhos, mais parece um vestiário comunitário de camping, tudo fica suspenso de modo a não ser atingido pela água e a caixa de sabão em pó incauta, pobrezinha, já está em estágio de sobrevida, desfalecendo no chão, se esvaindo em partículas azuis e verdes  de aloe vera. Então eu deveria chamar o seu Luís, que manda seu assistente, que com uma pequena caixa de ferramentas, cutuca o buraco sem tampa, faz algum movimento inexplicável pra pessoas ordinárias não-encanadoras como eu e resolve o problema em meros cinco minutos.  Acabo por não chamar ninguém, acendo um cigarro e espero. Espero. Espero.

Categories: rotina

Here it comes

May 21, 2009 · 2 Comments

Make a point to make no sense, well, here it comes
Speak about the future in the past tense, here it comes

Modest Mouse – Here It Comes

Categories: Music
Tagged: ,

Un petit dialogue

May 20, 2009 · 1 Comment

- Dis-moi, pourquoi tu bois beaucoup?
- Parce que…
- Qui est-ce que tu veux oublié?
- Personne.

Categories: diálogos

Página 225

May 15, 2009 · 5 Comments

Se de vez em quando encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, que arrancam gemidos, lágrimas e pragas, sabemos que elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa restante são suas palavras, e suas palavras são sempre mais fortes que o peso mentiroso e esmagador do mundo, mais fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade. Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há em seu coração, expressar o que é realmente sua experiência, o que é realmente sua verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e nenhum  deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do mundo.

Henry Miller – Trópico de Câncer

Categories: Puisia

Sometimes

May 11, 2009 · 3 Comments

Já me despedi de tantos amores, tantas vezes, parece que nunca entendi a serventia desse ritual. Olho para o telefone e me pergunto se alguém me atenderia a essa hora da manhã, eu chorando e dizendo que estou morrendo, acometida por dores profundas em lugares desconhecidos. É o tipo de dor que causa morte, tenho certeza. Não existe viva alma que vá desevendar a origem dessa minha enfermidade. Penso que talvez você faça uma vaga idéia. Não tenho ao menos dinheiro trocado ou folha avulsa de cheque pra chamar um táxi que me leve ao hospital. Chamar uma ambulância e dizer o quê? Oi, moça, tá doendo, me busca aqui? Então acredito que vou morrer nos próximos dez minutos e nem vale a pena avisar ninguém. Era você quem estava comigo praticamente todas as noites. Eu preparando algum jantar e você no computador ouvindo qualquer coisa enquanto tomávamos uma cerveja de boca larga nas taças que compramos juntos na terceira vez que fui na sua casa. E depois assistíamos a um filme, eu sempre dormia no meio, às vezes quase no final. Em alguns dias trepávamos sonolentos. Você dormia como um bebê, de costas pra mim e eu, insone, só conseguia observar as pintinhas na curva entre seu ombro e pescoço e suspirar, pensando no que fazer com tantos sentimentos pairando nos travesseiros. Pois, agora, aqui sozinha – digo, agora que estamos aqui, eu e a dor, acabo de assistir um filme até o final, veja só. E com os créditos, uma música do Coldplay. Eu sei que você odeia Coldplay. Eu não ligo a mínima pro Coldplay. Todo fim de amor é brega, como Coldplay. Meus olhos se umedecem e eu tento com força não chorar ouvindo uma música assim tão ruim, que nem nossa era. Não consigo. Um resto de maquiagem escorre pelo rosto deixando o espetáculo ainda mais circense. Por uma fração de segundo, revivo essas cenas específicas da nossa vida juntos que jamais consideramos mencionar em qualquer circunstância. Decido ignorar a dor, o choro, a banda medíocre, a vontade de telefonar. Em vão. Esse tipo de tentativa, na verdade, só me incita a pensar e me torturar mais ainda. Foi quando – com toques de masoquismo – te visualizei com outra pessoa, na sua cama, ou na rua, jantando, se permitindo encantar por alguém como se encantou por mim. Começando uma nova história, conhecendo algum corpo novo. Brincando de ser deus com a vida de outra pessoa. Isso machuca, dói, como nunca doeu – ou certamente doeu e eu talvez não me lembre, tão cega que estou. Eu não quero me despedir de você. Não de você.

Categories: random

Knife

May 5, 2009 · 1 Comment

Tirei do site novo da Warp, que está incrível, por sinal.

Categories: Music