- Já parou pra pensar no que te aconteceria se você acordasse amanhã e por algum motivo não pudesse escrever?
- Sinceramente? Acho que o pensamento me ocorreu, mas nada muito concreto, não.
- Pois eu, sim. E muito, por sinal. Imagine que todo o tipo de infortúnio tivesse cruzado seu caminho e você não tivesse mais a habilidade de falar, de usar suas mãos, de enxergar ou até mesmo de se mover. Não existe a menor possibilidade de escrita, mas sua consciência ainda vive. Imaginou?
- Prefiro não. Soa mórbido demais. Árido, seco, triste. Dramático, até.
- Agora pense no ser humano que inventou o horóscopo enquanto instituição, religião, medo da solidão, sei lá.
- Que tem?
- Poxa, um cara desses é praticamente um gênio. Veja só. Primeiro cria-se uma história mitólogica, como uma base, claro – é preciso um contexto, uma certa sedimentação. Logo em seguida, divide-se pessoas em categorias, obedecendo à uma lógica qualquer, que nesse caso é a data de nascimento.
- Onde você quer chegar? Sempre achei que você acompanhasse o ciclo do sol e dos astros e toda essa conversa.
- Então, vai ouvindo. Cada signo tem uma caraterística, certo? Você por exemplo é de Aquário, e diz-se, na teoria, que um aquariano precisa de liberdade.
- Nossa, se preciso.
- O caso é que se você for ler a descrição de cada um, percebe que isso não é um privilégio ou fardo de quem nasceu em janeiro, fevereiro, não sei ao certo. Sutilmente, o camarada floreou aqui e ali, e acabou por dizer que todos nascemos com o mesmo sentimento frase-chave inato a um só grupo de pessoas. Essa parte acaba por tornar o processo todo bastante confuso. Todo mundo é todo mundo, pode tudo, sente tudo.
- Certo… Agora me diz o qual era a tua previsão para o dia de hoje, anda.
- Ah, acho que algo como me embonecar, sair, me mostrar, flertar, farrear, me desprender. Não lembro bem, os termos são geralmente os mesmos. Não é uma dica motivacional?
- Opa, se é. É ótima, aliás. Pior são os dias em que nos recomendam meditação. Ou arrumação de armário. Acabo sempre fazendo o contrário, sabia? Resquícios de rebeldia. E qual era tua conclusão, mesmo?
- Então, você não acha isso tudo brilhante? Imagine só. Me desola pensar que posso acordar amanhã com uma idéia engenhosa assim na cabeça e tragicamente não ter meios de cuspir, expelir, gritar nem ao menos transpirar uma palavra sequer dela pra fora de mim.
Entries from April 2009
Oh, my stars
April 24, 2009 · 1 Comment
Categories: rotina
Página 71
April 22, 2009 · 4 Comments
“A vida”, diz Emerson, “consiste naquilo que um homem está pensando o dia inteiro.” Se isso é verdade, então minha vida nada mais é que um grande intestino. Eu não só penso em comida o dia inteiro, mas também sonho com ela durante a noite.
Henry Miller – Trópico de Câncer
Categories: Puisia
Twin of myself
April 22, 2009 · 2 Comments
Dentro de mim mora uma menina mimada, cheia de quereres infundados, cheia de vontades absurdas, um poço de desejos, transbordamento de moedas enferrujadas. Nosso relacionamento anda um tanto desequilibrado. Ela quer demais, quer tudo, quer agora. Ela só não me diz o que quer e me atropela por tentar sufocá-la, pobre de mim. Ela planeja as mais ardilosas vinganças, me encabula, me faz corar perante ao mundo. Passa como um tufão, um furacão, um tornado, um carro desgovernado em alta velocidade. E a mim sobra limpar a bagunça, a lambança, a sujeirada toda que ela deixa, culpa dessa mania descontrolada de querer demais, querer sem limite, querer por querer. A casa está do avesso, ela deixou panelas e pratos imundos no guarda-roupa, roupas espalhadas pelo chão, cobrindo todos os centímetros quadrados livres dos lindos tacos sintecados, ela pintou com tinta guache as paredes brancas, misturou todas as cores, tudo virou um cinza azedo, desagradável de se ver. Não bastando ainda jogou comida podre dentro da máquina de lavar e encheu a banheira com restos de bebida e bitucas de cigarro. Quebrou os vidros das janelas, revirou os móveis, rasgou meus livros, quebrou meus discos e foi embora, a menina.
Categories: random
Canção para o grande amor
April 22, 2009 · Leave a Comment
Despedi o grande amor de mim
Dizendo assim: grande amor
Não se esqueça de voltar
Porque a dor do amor que teve fim
Que foi ruim, sei que sim
Outro amor há de apagar
E há de ser sempre assim:
Minha casa aberta
E na mesa posta um talher a mais
Um cinzeiro a mais
E no seu lugar a mesma mulher a esperar
A mesma mulher pronta pra dizer
Entre, por favor, quando alguém surgir
Quando alguém chegar
Pode ser o amor, pode ser a dor, pode ser…
Preciso ter muitas rosas para receber
O grande amor
Quando for
Sua hora de voltar
Vinicius de Morais – Marília Medalha
Categories: Puisia
Hometown fantasy
April 16, 2009 · 1 Comment
Eu não sei quem ele é, nem imagino sua graça, muito menos onde ele dorme. Sei que ele lê algum jornal todas as manhãs, sentado no mesmo pedaço da mesma calçada e possui artigos de couro. Uma jaqueta preta e um colete marrom. Eu o vejo diariamente. Cabelo aparado, nunca sujo. Por vezes bêbado. Por vezes dançando. Certas noites faz suas refeições em um marmitex de alumínio. Não sei se ele sabe quem eu sou. Mas hoje descobri que existo – ele me cumprimentou com um sorriso alegre, dentes faltando. Estou viva.
Categories: rotina