Entries from January 2009
Second Aspect of the Same Thing
January 29, 2009 · 7 Comments
- É meio como quando você se apaixona, sabe? Que dá aquele reviro no estômago.
- Tá bem, mas eu não sinto nada no estômago.
- Como não?
- Não sei, não é assim que acontece. Eu sinto nas costas, sabe? Quando vem dali?
- Hmm. Então, no começo você acha pueril demais pra valer qualquer dúvida. Soa divertido, todo mundo sorri, todo mundo faz suas gracinhas, acha a vida linda. Mas ainda não se dá crédito.
- E que tem isso com a pergunta que eu te fiz?
- Calma, eu tenho uma linha de raciocínio. Me dá mais um gole, aqui.
- Pega um copo pra você.
- Deixa eu terminar. Lá pelas tantas, vem o momento do seu pensamento perambular naquela possibilidade além do previamente entendido.
- Sim, sei, muito parecido com os primeiros dias após uma longa semana de dieta e o chocolate é presente em todas as suas cenas diárias. Igual quando atrasa a menstruação e você só vê grávidas na rua.
- Pode ser. Eventualmente, o que era de seu pleno controle, começa a fazer parte da rotina em maneiras e proporções de uma estranheza viciante. Aí entra nossa grande amiga, a auto-indulgência. Se é tão deliciosamente perigoso, malicioso e libertador, qual o problema em me arriscar, né, não?
- Ah, sim, a dependência?
- Ainda não. Ela vem quando você tem o choque com a realidade e percebe o quão impossível é viver em taquicardias de manhã até a noite, madrugadas incluídas. Seu coração nem precisa tanto. Antes disso tem a parte onde você ainda não soltou as cordas, sabe muito bem onde aquilo pode parar. Mas não pára. Você, simplesmente, vai. Fuçando cada mini-partícula desse sentimento que não te frequenta tanto quanto você gostaria.
- É aí que fode.
- Nossa, fode. De um no almoço e dois de madrugada no computador, pula rapidamente para um maço. Existe a preocupação em andar com trocados e horários de funcionamento de padarias e supermercados.
- Acho que estou no estágio dois.
- Passei para o quarto e último e acho, honestamente, que você deveria fumar o quanto lhe é possível antes que não caiba mais continuar.
Categories: rotina
We can sleep when we get home
January 26, 2009 · 6 Comments
Nunca morri, nem tampouco me sinto fortalecida. Então vamos brincar de ser gente adulta, vamos nos reunir e beber. Falar de como somos crescidos, independentes, de como é sofrida a vida na cidade grande, e de como vencemos no auge da nossa pós adolescência tardia. Celebrar nossas pequenas misérias com champagne barato, flores de plástico e maconha seca. Vamos invadir nossas privacidades e nos amar pelo mesmo motivo que nos odiamos. Encontraremos conforto em antigas teorias que nos dizem o mundo em léxicos enfeitados. Brindaremos ao amor, ao tesão, ao dinheiro como se, de fato, os tivéssemos. Vamos rir de nós mesmos. Vamos rir do vizinho pelado e seu pau pequeno, das putas flácidas e desdentadas, do solitário e ranzina dono da banca de jornais. Vamos rir sem culpa. Dançaremos ao som de músicas que nos preenchem algum espaço vazio cuja existência desconhecemos. Nunca estivemos errados, nem tampouco certos. Então vamos.
Categories: random
Yesterdays
January 19, 2009 · 1 Comment
O velho senhor desmaiou, caiu na calçada esburacada. Alguns passantes o acudiram. Compraram-lhe água e pão-de-queijo na lanchonete da esquina. O velho senhor carregava uma pastinha com documentos. Ele é office boy em uma empresa de contabilidade engajada. Faz muito calor, o sol está forte, e o velho senhor, de pé desde muito cedo, saltando de banco em banco, desmaiou, caiu na calçada. Assentaram-no em um canteiro de flores murchas, na entrada do grande edifício dos executivos. Ele respirava fundo e entre um gole e outro da água geladinha, com as mãos trêmulas, soltou os primeiros botões da camisa verde musgo de manga longa. Alguém pergunta se ele quer tirar os sapatos, ele diz, não senhora, não precisa, não. Seus sapatos estão conservados, tem o couro brilhante, mas as solas gastas de tanto caminhar pela cidade, portando urgências burocráticas alheias. O velho senhor está cansado e eu, tão desamparada diante da cena, desvio o olhar e sigo andando, cuspindo as minhas verdades que nem são tão verdadeiras assim.
Categories: rotina
The Fairly OddParents
January 15, 2009 · 3 Comments
Nove e cinquenta e cinco da manhã, pego o ônibus com atraso. Uma avó e seu neto entram no ponto seguinte. Ela, com seus sessenta e poucos anos, é expansiva, conversa animada com o cobrador e alguns passageiros. O menino, por volta dos seus gloriosos oito anos, passeia pelo veículo, sentando-se em todos os lugares vagos. Veste uma camiseta vermelha com o desenho de uma criança dizendo “Vicky got blamed for what I did? Cool!“. Nada como algum sadismo infantil pra começar bem o dia.
Categories: rotina

