O que aconteceu foi que um dia assisti a um filme e fiquei com idéias tortas na cabeça. Impossibilitada de fugir pralgum continente distante por falta de fundos na conta corrente, decidi, então, que seria tão auto-suficiente quanto possível. Só não cancelei a conta de telefone por ser ela vinculada à internet. E sem a abençoada Rede Mundial de Computadores e as Enciclopédias Barsa que ainda se encontram na casa dos meus pais, ficaria complicado botar meu grande projeto de vida nova em prática. É como dizem, informação é ouro. Adicionalmente, comprei algumas revistas Manequim, aquela com moldes prontos de roupa, eu precisava começar minha fabulosa empreitada por algum lugar. Imaginei que fazendo minhas próprias roupas já me sentiria 60% mais livre, uma vez que já não corria mais o risco de sair na rua e ver pessoas com vestimentas iguais às minhas. Claro que eu pensei que muitas senhorinhas costureiras que moram no térreo dos prédios, também utilizavam-se dos moldes da revista. Pois tudo já estava muito bem arquitetatado e eu colocaria meu toque especial, individual, puro e único e não mais me pareceria como algum membro de um exército fashionista liderado por algum fanático de uma seita que pretende o fim do mundo através da contaminação pelas peças cheias de ácaros de infinitos brechós. Ao longo de uma tarde, planejei todo um novo guarda-roupa, elaborei minha própria moda, aprendi a desenhar, a colorir e a recortar tecidos. Foi então que percebi que a parte mais importante do processo tinha ficado pra trás, entre a nova obsessão de liberdade e os chocolates da banca da esquina. Eu não tinha uma máquina de costura, tampouco sabia lhufas sobre o ofício, nunca jamais sequer um botãozinho eu preguei, um número incontável de camisas sem botão e calças descosturadas no rêgo estão descaradamente no uso sem que eu nem me envergonhe disso. Decidi que não me sentiria desolada, não me abalaria por um obstáculo qualquer, precisava de um plano B. Depois de horas folheando as mais deselegantes fazendas, fumando bitucas velhas de cigarros do cinzeiro e tomando todo o refrigerante sem gás do universo, voltei pra banca, quem sabe alguma inspiração não viria dali. Mal sabia eu a peça que o destino me pregaria nos minutos seguintes à minha saída desesperada. Enquanto sacolejava os quadris ao som de algum remix de algum cover, mascava um chiclete, fazia bolas e procurava uma salvação em meio às prateleiras, começa a gritaria desenfreada de uma dona cotinha guardiã das vizinhanças desprotegidas. A tia berrava: FOGO! FOGO! ACODE! FOGO! Houve uma grande comoção, em meio à muita gente correndo, se debatendo pra ver o que acontecia, eu não tinha coragem nem de olhar pra cima e atestar o que já estava atestado segundos atrás na minha cabeça avoada que tinha deixado o forno ligado com uma pizza velha de dois dias atrás aquecendo desde a hora do almoço. E agora? Minha vida, meu computador, meus projetos tão antigos e caros, os novos também e principalmente, minhas roupas. Todas elas queimadas, fritas pelo fogo impiedoso, tudo virou cinza, fuligem, farelo. Logo eu, que sempre leio avidamente todas as dicas de como se vestir bem até dentro da própria casa, me tornei refém da própria preguiça. Para minha infelicidade, eu portava uma calça flanelada laranja de bolinhas brancas, uma camiseta amarela manchada de tinta de cabelo e alguma outra substância não facilmente identificada, nenhum sutiã, um casaquinho marrom, cor nada favorita e um chinelo de dedos que me causava bolhas se utlizado por uma distância maior que uma quadra. No afã de me sentir independente de mim mesma, me vi presa por toda eternidade à uma muda de roupas extremamente feias. Foi então que um bombeiro, sexy por clichê, me perguntou se eu era a dona do apartamento incendiado. Sim, sou eu, sim, senhor. Ele calmamente me olhou nos olhos, segurou meus braços e disse com uma voz machamente delicada: chora não, moça, veja pelo lado bom, agora você pode começar do zero, com o dinheiro do seguro você pode comprar tudo novo. Isso, sim, é liberdade. Nos casaremos no próximo outono.