Sempre acreditei no amor romântico, nas princesas dos filmes, nas mocinhas virgens e puras das novelas. Alguém dizia ’seja boazinha e papai do céu te traz um grande amor, um marido, um pai pros teus filhos’. Xuxa fez Didi Mocó virar príncipe encantado. E até o Sérgio Mallandro com dois éles, veja bem. A Barbie e o Ken faziam sexo de calcinha e cueca e o Falcon era o next best thing com seu coturno macho de plástico. Essa danada dessa semiótica bagunçada me deixa em beiras de ganhar uma careca lustrosa. Essa menina malandra pilantra que brinca com a minha visão, fazia-me pecadora quando o menino Jesus da parede me fitava com seus olhinhos azuis de gesso tão doces e tristes, e suas pequenas mãos gordinhas seguravam algum rosário de continhas brilhantes. O protótipo da felicidade chega em forma de bola de cristal. Assim como no livrinho da auto-escola, onde te ensinam o que querem dizer todas as placas espalhadas pela cidade afora. Para ganharmos a tão almejada carta de motorista que nos torna aptos à dirigir, basta decorarmos o significado dessas tantas muitas sinalizações. O guarda apita uma vez e você pára. O guarda apita duas vezes e você segue. Ou o contrário. Centro de Formação de Condutores Santo Expedito. Ou seria São Jorge? Que eu me encontre distraída qualquer dia desses, quando o sol forte me embrulha o estômago e eu penso em marcas de antiácido e trombe com a compilação de todos os códigos das pessoas, e assim eu já saiba o que tudo na vida quer dizer de uma vez por todas. Edição capa dura em Pólen Bold 90g. Que eu pare de ter achaques de vidência. Que eu leia nas palavras duras e difusas alguma verdade qualquer como ‘você é linda, só estou com dor de barriga desde ontem e não consigo soltar minhas ventas em banheiros públicos’, ‘te amo, mas tenho um pêlo encravado na polpa da bunda me matando de tanta dor’, ‘não estou sorrindo pra você hoje porque comi muita pimenta no churrasco de sábado e me atacou as hemorróidas’. E que enquanto nada disso aconteça, eu consiga respirar a paz da não-interpretação.
Entries from September 2008
Follow my only song
September 19, 2008 · 1 Comment
Misturam-se o ouro e a prata
Ao toque de mil mãos
Já disseram eu te amo de babel
Agora o metal alimenta um futuro
Ora queima, ora congela
Não-ser.
Categories: random
I’m like the clock on the wall
September 8, 2008 · 8 Comments
Hoje eu sinto a dor dos olhos brilhantes e úmidos que me cruzam. Visito a impotência de todas as almas machucadas e as levo comigo ao longo do meu caminho. Carrego todas as costas cansadas, todos os pés e mãos inchados e calejados, as crianças miúdas e chorentas. A temida velhice, as famílias partidas, os argumentos inválidos e perdidos, a juventude invejada, os sonhos esquecidos no fundo de algum armário, o grande amor desconhecido. Todas as roupas amassadas, sujas, manchadas pela naftalina, cerzidas, reaproveitadas. Os chapéus mofados que ostentam algum garbo antigo. Os carrinhos de feira enferrujados e as sacolas de palha que portam um almoço humilde. O mundo se entranhou em mim. Quero chorar toda essa tristeza cinza. Esvair-me em pequenas lágrimas encharcadas. Mas não consigo. O mundo se entranhou em mim.
Categories: random
Je ne veux pas travailler
September 2, 2008 · 5 Comments
Não precisa mais gastar saliva com esse seu discurso vencido, envelhecido e decorado. Suas causas são todas perdidas e a sua rebeldia cheira à mofo. Se eu me sento nessa merda de mesa de bar com você, é pra tomar uma cerveja e despejar meus verbos em alguém, não adianta tentar me convencer do que eu preciso ler, e de que eu devo votar em alguém pelos próximos cinquenta anos. Você me diz ser de esquerda e eu te pergunto se você é canhoto, porque pra mim esquerda é o lado de onde a minha escrita começa, é a via livre das escadas rolantes no metrô. Se você de fato usasse o lado esquerdo do seu cérebro talvez conseguisse notar que o que você fervorosamente absorve, são lutas antigas, encarquilhadas pela vida que hoje nós levamos. Já nascemos com o peso do individualismo, e ler Marx, me desculpe, não vai te tirar do lugar, não vai fazer o menino malabarista de bolinhas de tênis da rua parar de apanhar dos pais por não conseguir mais do que umas míseras moedas num dia inteiro de trabalho. Já que você quer um mundo melhor, por que não começa cuidando de você mesmo e da sua aparência? Por que não deixa essas havaianas fedidas em casa, calça um tênis, ninguém precisa ver seus dedos sujos. Eu, sinceramente, não tenho interesse algum nas suas polêmicas falidas. Mais legal seria se você me contasse de onde veio essa cicatriz no seu queixo, ou de quando morava no interior, e que era apaixonado pelo seu professor de História, mas que ele era casado e tinha dois filhos, e que você fez catequese e nunca conseguiu engolir uma hóstia sequer, elas sempre grudavam no céu da boca. Me conta também sobre os seus pais, me conta com o que você sonha à noite, me conta o que te faz salivar, chorar como criança, querer morrer. Não venha me dizer que você morreria pelo seu ideal, eu não acredito mais nisso. Me conta o que é que te faz vivo. Prometo não interromper.
Categories: random