E as coisas vão indo de mal a pior. Você está em estágio de sobrevida, não sabe mais porque acorda ou porque dorme. Preferiria não fazer nem um nem outro. Se dependesse de você, os dias todos seriam iguais, a cama bagunçada com os lençóis embolados, um pacote de cream cracker murcha, umas latas quentes de cerveja, o notebook e a conexão sem fio roubada do vizinho. O que mais querer, afinal?
Mas você precisa se levantar, não é? Precisa trabalhar, precisa cumprir com as suas obrigações humanas e sociais, precisa limpar o cocô dos gatos e jogar aquela areia fétida fora – nem eles agüentam aquilo ali mais. Sua sobrancelha tem pêlos sobrando por todos os lados, a qualquer momento vão te confundir com a Frida Khalo na rua e você vai ficar extremamente ofendida. Suas unhas dos pés estão tão grandes que até a sua vizinha de baixo já percebeu, elas fazem mais barulho que a dos gatos. Tec-tec-tec-tec.
E o máximo que você consegue fazer é chorar compulsivamente quando o chuveiro se recusa a funcionar. A água vai caindo constritamente em pequenas gotas geladas, em contraste com as lágrimas quentes que escorrem dos seus olhos. Você se recolheu em sua pequena bolha, seu mundinho, virou um tatu-bola, enrolada no edredon, ruminando seu ódio pelo mundo e todos os seus habitantes. Todos eles.
O telefone desconectado vira um objeto de decoração, não há motivo para ouvir a voz de ninguém, muito menos quando querem saber se você está bem. Não, eu não estou bem, não vou ficar bem só porque você acha que eu deveria ficar bem, então vá a merda. Os gatos estão miando mais do que o normal, você percebe que precisa se levantar e ir até o local mais próximo comprar uma ração qualquer que cale a boca dos pobres bichinhos.
Então você vai na vendinha do bairro, coloca meia dúzia de besteiras na cestinha de plástico azul marinho desgastada pelo uso, quando ouve um burburinho nos fundos da loja. Mesmo não querendo contato algum com seres viventes e falantes, já que está ali, você se aproxima pra entender o que se passa. Uma senhorinha de uns 80 anos, que comprava seu pão recém saído do forno para o café da tarde teve um ataque fulminante e caiu dura e morta sem nenhuma dignidade no chão sujo de uma pequena mercearia de esquina.
Aquilo te machuca de uma maneira tão devastadora, com uma magnitude sem tamanho e você se lembra da sua avó e de não ter tido coragem de pegar um ônibus para ir ao seu enterro. Se sente tão pequena, vazia e egoísta vendo as pessoas se comoverem, ligando para o hospital, corpo de bombeiros ou para onde se tem que ligar nesses momentos. Não há o que fazer. Você só sabe que não quer se envolver naquele processo e sem nem piscar os olhos e pensar em como pagar a compra, você sai correndo com cesta e tudo, desembestada pela rua afora, gritando de indignação com essa vida insuportavelmente cruel.
Chegando em casa você alimenta os gatos e dorme. Dorme pra cessar de existir por um momento que seja. Não quer sonhar, não quer pensar, não quer mais os amores, amigos, a família. Não quer nada mais que seja mortal, que possa acabar sem que você tenha ao menos escolha. Dorme por três dias seguidos. E aí você acorda sem mais nem menos e nada dói. Seus olhos estão abertos e você não sente mais dor alguma. Quase inacreditável, tão desconhecido que chega a ser insuportavelmente bom. E você sorri, se levanta e toma um banho gelado. Abre a janela e a vida está ali. E você sente um alívio enorme por ela continuar acontecendo até mesmo quando se morre.