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Entries from July 2008

Just don’t know

July 23, 2008 · 9 Comments

E as coisas vão indo de mal a pior. Você está em estágio de sobrevida, não sabe mais porque acorda ou porque dorme. Preferiria não fazer nem um nem outro. Se dependesse de você, os dias todos seriam iguais, a cama bagunçada com os lençóis embolados, um pacote de cream cracker murcha, umas latas quentes de cerveja, o notebook e a conexão sem fio roubada do vizinho. O que mais querer, afinal?

Mas você precisa se levantar, não é? Precisa trabalhar, precisa cumprir com as suas obrigações humanas e sociais, precisa limpar o cocô dos gatos e jogar aquela areia fétida fora – nem eles agüentam aquilo ali mais. Sua sobrancelha tem pêlos sobrando por todos os lados, a qualquer momento vão te confundir com a Frida Khalo na rua e você vai ficar extremamente ofendida. Suas unhas dos pés estão tão grandes que até a sua vizinha de baixo já percebeu, elas fazem mais barulho que a dos gatos. Tec-tec-tec-tec.

E o máximo que você consegue fazer é chorar compulsivamente quando o chuveiro se recusa a funcionar. A água vai caindo constritamente em pequenas gotas geladas, em contraste com as lágrimas quentes que escorrem dos seus olhos. Você se recolheu em sua pequena bolha, seu mundinho, virou um tatu-bola, enrolada no edredon, ruminando seu ódio pelo mundo e todos os seus habitantes. Todos eles.

O telefone desconectado vira um objeto de decoração, não há motivo para ouvir a voz de ninguém, muito menos quando querem saber se você está bem. Não, eu não estou bem, não vou ficar bem só porque você acha que eu deveria ficar bem, então vá a merda. Os gatos estão miando mais do que o normal, você percebe que precisa se levantar e ir até o local mais próximo comprar uma ração qualquer que cale a boca dos pobres bichinhos.

Então você vai na vendinha do bairro, coloca meia dúzia de besteiras na cestinha de plástico azul marinho desgastada pelo uso, quando ouve um burburinho nos fundos da loja. Mesmo não querendo contato algum com seres viventes e falantes, já que está ali, você se aproxima pra entender o que se passa. Uma senhorinha de uns 80 anos, que comprava seu pão recém saído do forno para o café da tarde teve um ataque fulminante e caiu dura e morta sem nenhuma dignidade no chão sujo de uma pequena mercearia de esquina.

Aquilo te machuca de uma maneira tão devastadora, com uma magnitude sem tamanho e você se lembra da sua avó e de não ter tido coragem de pegar um ônibus para ir ao seu enterro. Se sente tão pequena, vazia e egoísta vendo as pessoas se comoverem, ligando para o hospital, corpo de bombeiros ou para onde se tem que ligar nesses momentos. Não há o que fazer. Você só sabe que não quer se envolver naquele processo e sem nem piscar os olhos e pensar em como pagar a compra, você sai correndo com cesta e tudo, desembestada pela rua afora, gritando de indignação com essa vida insuportavelmente cruel.

Chegando em casa você alimenta os gatos e dorme. Dorme pra cessar de existir por um momento que seja. Não quer sonhar, não quer pensar, não quer mais os amores, amigos, a família. Não quer nada mais que seja mortal, que possa acabar sem que você tenha ao menos escolha. Dorme por três dias seguidos. E aí você acorda sem mais nem menos e nada dói. Seus olhos estão abertos e você não sente mais dor alguma. Quase inacreditável, tão desconhecido que chega a ser insuportavelmente bom. E você sorri, se levanta e toma um banho gelado. Abre a janela e a vida está ali. E você sente um alívio enorme por ela continuar acontecendo até mesmo quando se morre.

Categories: contos

Crush

July 7, 2008 · 4 Comments

Nunca soube me expressar muito bem em relação aos fatos denominados como coincidências. Um dia ví um menino em um show desses ao ar livre, com tendas, barracas, três palcos e muita gente aleatória. Tinha estatura mediana, olhos grandes, um cabelo e sorriso desalinhados. Usava uma jaqueta jeans com uns patchs punks, uma camiseta branca, calça preta e all star. Eu o olhei e ele sorriu, como se já tivessemos nos visto antes. Depois vim a saber que, sim, já fomos formalmente apresentados na festa de lançamento de alguma revista em quadrinhos, se não me engano. Como não era eu quem estava ali no dia em questão, nada pude fazer a não ser sorrir de volta. “Aquela não sou eu, ela sente o cheiro de bebida misturado com Halls e o bafo doce de pessoas à caça, e aparece”. Mas ele não iria entender, claro.

No mesmo dia, horas depois do show, ele me descobriu na internet, através de amigos em comum. Pulei como uma menina de colégio sem pudor algum, com a sensação de receber um correio elegante ou papelzinho de bala com os dizeres “eu te quero”. Tinha terminado com mais um namorado há uns dois meses e ainda me sentia como uma samambaia seca. Nunca mais sonharia com decoração de centro de mesa e atravessaria a rua todas as vezes que avistasse uma loja de noivas. Os momentos em que nos apaixonamos são extremamente pontuais. No meu caso, ao menos, eu diria que são afiadíssimos como faca recém amolada na beirada da pia de mármore. Geralmente é um olhar, um sorriso, muitas vezes a primeira audição da voz do interlocutor já é mais do que suficiente pra sucitar no coração de cada um a esperança do “para sempre” – ou, como vulgarmente digo, “o grande desejo casamenteiro de uma mulher”. 

Passamos a nos comunicar virtualmente e as possibilidades soaram interessantes. Claro que tudo se torna mais atraente depois que você passa semanas a fio enfiando a cabeça no travesseiro pra chorar de desespero por ter sido abandonada, fingindo que não quer que ninguém te ouça, mas no fundo quer mais é que venham te trazer cafuné e colo quente na cama. Depois de alguns dias de troca de flertes e mensagens dúbias, combinamos de nos encontrar no tal boteco frequentado na época por pessoas que variavam de roqueiros a poetas, onde hoje só se vê gente que segue algum tipo de moda que os encaixa em algum nicho, de certa forma, seguro. 

O início, obviamente, foi tímido, com inúmeras falhas de comunicação e extrema repetição de palavras desconexas. O que nos fez beber muita cerveja, e eventualmente a tal pinga que tinha nome de um senhor pedreiro de roupa surrada que fazia serviços gerais na casa dos meus pais. Foi então que já não tivemos mais nada pra fazer nem falar que não fosse o tão esperado beijo. Nos beijamos delicadamente, encostando os lábios devagar e ansiosamente e em seguida as línguas, concluindo toda uma etapa ao qual tinhamos nos dedicado com uma grande quantidade de tesão por uma semana inteira.

Tinha tudo pra dar certo, ele me queria, eu queria ele, tínhamos alguns poucos gostos em comum, mas o principal é que queríamos muito trepar por dois dias e noites inteiros. Sem nem saber o que estava acontecendo, um dia ele parou de falar comigo, não atendeu minhas ligações, nem sequer respondeu uma mísera mensagem de texto. Passei um dia inteiro sentada na janela, olhando pro nada, fumando um maço do cigarro forte do filtro amarelo, revendo todos os mínimos detalhes do meu micro relacionamento com ele. O que poderia ter transparecido em mim que o fez desaparecer? O que havia de tão errado em mim que ocasionou esse vazio onde antes havia uma grande e palpitante expectativa? E o sexo animal que estávamos prestes à fazer? 

Decidi, dessa forma, encontrar com alguns amigos, naquele mesmo bar, beber tudo o que houvesse e expurgar essa ressaca que habitava e machucava meu corpo. Lá pelo meio da décima garrafa da cerveja mais cara do lugar, muitas cachaças flamejantes e uma porção semi-fria de uma parte não ortodoxa do boi ou vaca, como quiser, o sujeito aponta na esquina, com um amigo que calçava sandálias de borracha modelo “pai”, tinha uma enorme barba por fazer e uma sacola plástica de supermercado em uma das mãos. Juntei toda a minha falta de dignidade, me levantei e fui tentar arrancar dele alguma mera frase que pudesse justificar essa grande falta de consideração com a minha vontade louca de dar pra ele.

Ele disse que havia sido despejado do seu apartamento, estava sem telefone, pediu desculpas, se virou e saiu. Tive vontade de dar um tapa na cara dele, chutar sua canela, arranhar seus braços e pescoço, puxar seu cabelo, cuspir e soltar toda a raiva que sentia naquele momento. Queria arrancar todos os pêlos de seu saco com uma pinça, como uma tortura chinesa, ou sei lá como chamam isso. E então, rápido como a paixão apareceu, a raiva foi embora depois da vigésima garrafa. A cerveja estava gelada, descia tão bem como água em um dia quente e abafado de Janeiro. Estávamos em pleno inverno e eu tirei o casaco. Comecei a dançar uma música qualquer que tocava nos arredores, cantando alto, atraindo olhares de curiosos que por ali desopilavam as agruras dessa vida tão difícil com o único parceiro fiel em dias de depressão, o alcóol.

E aí um outro menino sorriu pra mim.

Categories: contos