No instante em que abriu os olhos, voltou a sonhar. Respirou enfim, aliviada por estar de volta ao mundo dos seus devaneios. Caminhava com os olhos atentos ao que se passava, e sentia em seu coração algo como uma alegria sem precedentes, e este não dizia nada mais do que um simples pulsar levemente descompassado.
Atravessou ruas, cruzou automóveis e pedestres, o pequeno homem vermelho piscava e ela apressou o passo. Queria chegar logo ao seu destino e não conseguia pensar em outra coisa que não fosse ele. Imaginava cenas, criava situações, alinhava os cabelos, conferia as horas. Sem deixar o sorriso no canto do lábios em nenhum momento.
Quando finalmente chegou, correu. Não esperou o elevador. Subiu as escadas pulando de dois em dois degraus. Trôpega, tocou a campainha. E ansiosamente esperou que a porta fosse aberta. Mais um segundo, ela explodiria e todos os seus sonhos e pensamentos ecoariam pelos corredores afora. Do outro lado ele sorria, com seus olhos castanhos escuros, pequenos e ligeiramente apertados atrás dos óculos.
E por um momento eles se olharam, e em seu íntimo, ela, que sonhava, pode ver em seus olhos tão pequenos um brilho que não havia reparado antes. Um olhar, sabia ela, poderia ter milhares de significados e significantes. E aquele olhar, para ela, era a imagem perfeita que traduzia o grande sentimento quase sempre nomeado como amor.