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Entries from May 2008

E o bode?

May 27, 2008 · 1 Comment

O que não é um bode expiatório, senão um um ser benéfico à sociedade? Um facilitador de relações? E por que não dizer, um semeador de amor?

Como é revigorante presenciar uma manifestação verbal alheia em alto e bom som. Todo mundo adora assistir ao cara na lanchonete que se descontrola com a atendente semi-analfabeta de olhos arregalados que, balbuciando, diz, ‘desculpa, senhor, desculpa’. E àquelas pessoas que não conseguem descer do ônibus porque a porta de saída não foi aberta e berram lá do fundo do veículo, ‘abre essa porra, motorista!’. Casais brigando, então? Ah, aí é a glória. Pessoas expressando publicamente o seu descontentamento, desconforto, seu sofrimento e dores mais íntimas, trazem um alento imensurável ao expectador.

O primeiro pensamento que vem em mente é o mais clássico, ‘ainda bem que não é comigo’. É um dos sentimentos que mais acalmam a um coração. O mundo do vizinho caindo, panelas voando, dentes quebrados, as crianças berrando e os cachorros uivando. Não importa se você já não consegue mais dormir com o pandemônio. O que interessa é ser dentro da casa do vizinho e não da sua. Você pode calmamente abraçar seu cônjuge, cheirar os cabelos dele, dar um beijo na nuca e dizer, ‘nós não somos assim, meu amor, olha como nos amamos, isso não acontece com a gente’.

Após o julgamento inato, vem a sensação de conforto. É quando podemos realizar através do outro a nossa necessidade de botar pra fora tudo que guardamos aqui dentro e que nos incomoda. Toda a nossa vontade de esgoelar com quem nos faz sentir injustiçados e diminuídos. Cada vez que nos tomam o lugar na fila, que nos roubam o que é caro, que nos negligenciam de alguma forma.

É incrível saber que as outras pessoas com quem dividimos o mundo também sofrem, e é através da voz de uns e outros que podemos finalmente dormir em paz. Podemos deitar nossas cabeças nos travesseiros de pena de ganso cuidadosamente afofados e descansar, sabendo existir alguém ali fora que ainda luta por todas e quaisquer causas perdidas. Dormimos o sono dos justos.

Categories: rotina

One hundred telephones

May 5, 2008 · 3 Comments

Bastou apenas um olhar para que a beleza do aleatório despertasse em seu antes convicto coração um forte e intenso desejo e que nesta ocasião foi definido precipitadamente como curiosidade.
O que não o faz errado. Não fosse essa denominação, como dar vazão àquele turbilhão de sentimentos novos e desconexos que contrastavam com toda a certeza e segurança arduamente alcançadas?
A partir dali buscou os subterfúgios existentes para justificar suas atitudes. Era tão bom com as palavras e por um instante percebeu que sua própria essência o traíra. Nem que inventasse um novo alfabeto, conseguiria verbalizar tudo aquilo que fazia seu corpo vibrar e pulsar num compasso estranhamente desconhecido.
Se tornou tão vivo que já não cabia mais em nenhum lugar ou situação que não fosse vinculada à sua nova condição.
De súbito levantou-se, abriu a porta e saiu.

Categories: contos