Arlete era professora aposentada, viúva, não tinha filhos, netos, sobrinhos, irmãos e nem ao menos primos. Era uma senhora solitária, de idade não tão avançada, mas com o rosto marcado por algumas – muitas – linhas de expressão ao redor dos olhos e dos lábios. Arlete não tinha os cabelos roxos como a grande maioria de suas vizinhas. Há muito havia desistido do trato com os cabelos e adquirido uma peruca que se assemelhava ao corte de Elizabeth Taylor no filme “Gata em Teto de Zinco Quente”, que era um de seus prediletos.
Suas atividades concentravam-se basicamente em cuidar da antiga casa, ir à feira e floricultura, fazer palavras cruzadas e assistir TV. Eventualmente sentava-se na calçada em uma cadeira de praia de alúminio e assento de náilon, com um livro ou revista, e compartilhava com as senhorinhas de cabelos roxos os acontecimentos que chocavam a cidade dia após dia. Trocavam receitas e marcavam noites de baralho que nunca aconteciam. Arlete sempre encontrava uma maneira de se esquivar das reuniões. Ela gostava da solidão.
E, em um desses dias iguais em sua vida, Arlete acordou no meio da noite, perturbada pelo sonho mais vívido de que se recordava. Ela estava no meio do pátio do colégio que estudou quando criança, sozinha, assustada, quando uma criatura mágica apareceu, a envolveu com braços que não eram braços, mais pareciam galhos de árvores cuidadosamente encapados com um fino tecido branco e brilhante. O ser encantado emanava uma forte luz e tinha uma voz doce, suave. Arlete não soube precisar se era um anjo, uma fada, um elfo ou qualquer animal que povoe um livro de histórias infantil.
Quando acordou escreveu rapidamente o que lhe havia dito a criatura: “Em quarenta dias eu voltarei. Em quarenta dias lhe darei a grande resposta”. Arlete, que teve uma criação católica, passou a rezar fervorosamente durante os quarenta dias que se seguiram. Andava sempre com um rosário no bolso, e cada vez que fechava os olhos ouvia aquela voz que soava como música em seus ouvidos. Nunca se sentiu tão viva, tão plena. Sentiu que finalmente todos aqueles anos que passou ajoelhada no milho em penitência, todos os domingos sem lacunas ouvindo a missa do Padre Miguel, todas as procissões, todas as novenas, nada daquilo seria em vão. Sua resposta chegaria.
Ao final do quadragésimo dia, quando lavava uma muda de roupas, enjoada com o cheiro daquela barra sabão caseiro, Arlete se deu conta que esperou por quarenta dias por uma resposta da qual ela não sabia a pergunta. Afinal, qual era a sua grande dúvida? Teve a vida que escolheu, amou seu marido intensamente, quando professora, amou cada um de seus pequenos alunos, amou cada livro que leu, cada filme que assistiu, cada novela que acompanhou na TV. Nunca quis ter filhos, acreditava não saber concentrar tanto amor em uma criança só. Amou profundamente a solidão. Chegou a pensar que a Resposta seria então o fim de sua vida. O ser mágico viria com ordens do Supremo para buscá-la e levá-la para o que poderia ser definido como uma nova etapa em sua existência.
O quadragésimo-primeiro dia discorreu sem arroubos. Arlete vestiu uma roupa bonita, se maquiou, perfumou, ousou até colocar brincos. Queria estar impecável para o grande momento. Mesmo sabendo que se morresse iria para debaixo da terra, seria comida até os ossos e só o que sobraria dela seria a peruca de Liz. Espantou os pensamentos tolos e acreditou que sua alma chegaria ao paraíso bem vestida e pronto. Não poderia encontrar seu finado amor em más condições.
O dia passou e nada aconteceu. Assim sendo, dormiu uma noite tranquila, sem sonhos, acordou praticamente na mesma posição em que havia se deitado. O rosário ainda estava preso à sua mão direita. Arlete estava mais viva do que no dia anterior e mais viva até mesmo do que no dia em que nasceu. E nada de anjo, mago, luz ou resposta alguma. Deu uma grande gargalhada e foi cuidar de seus afazeres, esperando ansiosamente apenas pelo momento do dia em que poderia sentar-se em seu grande sofá encapadado, soltar as pantufas de plush no chão e calmamente assistir à sua novelinha das cinco. Essa sim, nunca a deixava na mão.