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Entries from April 2008

I Shall Be Free

April 29, 2008 · 1 Comment

Arlete era professora aposentada, viúva, não tinha filhos, netos, sobrinhos, irmãos e nem ao menos primos. Era uma senhora solitária, de idade não tão avançada, mas com o rosto marcado por algumas – muitas – linhas de expressão ao redor dos olhos e dos lábios. Arlete não tinha os cabelos roxos como a grande maioria de suas vizinhas. Há muito havia desistido do trato com os cabelos e adquirido uma peruca que se assemelhava ao corte de Elizabeth Taylor no filme “Gata em Teto de Zinco Quente”, que era um de seus prediletos.

Suas atividades concentravam-se basicamente em cuidar da antiga casa, ir à feira e floricultura, fazer palavras cruzadas e assistir TV. Eventualmente sentava-se na calçada em uma cadeira de praia de alúminio e assento de náilon, com um livro ou revista, e compartilhava com as senhorinhas de cabelos roxos os acontecimentos que chocavam a cidade dia após dia. Trocavam receitas e marcavam noites de baralho que nunca aconteciam. Arlete sempre encontrava uma maneira de se esquivar das reuniões. Ela gostava da solidão.

E, em um desses dias iguais em sua vida, Arlete acordou no meio da noite, perturbada pelo sonho mais vívido de que se recordava. Ela estava no meio do pátio do colégio que estudou quando criança, sozinha, assustada, quando uma criatura mágica apareceu, a envolveu com braços que não eram braços, mais pareciam galhos de árvores cuidadosamente encapados com um fino tecido branco e brilhante. O ser encantado emanava uma forte luz e tinha uma voz doce, suave. Arlete não soube precisar se era um anjo, uma fada, um elfo ou qualquer animal que povoe um livro de histórias infantil.

Quando acordou escreveu rapidamente o que lhe havia dito a criatura: “Em quarenta dias eu voltarei. Em quarenta dias lhe darei a grande resposta”. Arlete, que teve uma criação católica, passou a rezar fervorosamente durante os quarenta dias que se seguiram. Andava sempre com um rosário no bolso, e cada vez que fechava os olhos ouvia aquela voz que soava como música em seus ouvidos. Nunca se sentiu tão viva, tão plena. Sentiu que finalmente todos aqueles anos que passou ajoelhada no milho em penitência, todos os domingos sem lacunas ouvindo a missa do Padre Miguel, todas as procissões, todas as novenas, nada daquilo seria em vão. Sua resposta chegaria.

Ao final do quadragésimo dia, quando lavava uma muda de roupas, enjoada com o cheiro daquela barra sabão caseiro, Arlete se deu conta que esperou por quarenta dias por uma resposta da qual ela não sabia a pergunta. Afinal, qual era a sua grande dúvida? Teve a vida que escolheu, amou seu marido intensamente, quando professora, amou cada um de seus pequenos alunos, amou cada livro que leu, cada filme que assistiu, cada novela que acompanhou na TV. Nunca quis ter filhos, acreditava não saber concentrar tanto amor em uma criança só. Amou profundamente a solidão. Chegou a pensar que a Resposta seria então o fim de sua vida. O ser mágico viria com ordens do Supremo para buscá-la e levá-la para o que poderia ser definido como uma nova etapa em sua existência.

O quadragésimo-primeiro dia discorreu sem arroubos. Arlete vestiu uma roupa bonita, se maquiou, perfumou, ousou até colocar brincos. Queria estar impecável para o grande momento. Mesmo sabendo que se morresse iria para debaixo da terra, seria comida até os ossos e só o que sobraria dela seria a peruca de Liz. Espantou os pensamentos tolos e acreditou que sua alma chegaria ao paraíso bem vestida e pronto. Não poderia encontrar seu finado amor em más condições.

O dia passou e nada aconteceu. Assim sendo, dormiu uma noite tranquila, sem sonhos, acordou praticamente na mesma posição em que havia se deitado. O rosário ainda estava preso à sua mão direita. Arlete estava mais viva do que no dia anterior e mais viva até mesmo do que no dia em que nasceu. E nada de anjo, mago, luz ou resposta alguma. Deu uma grande gargalhada e foi cuidar de seus afazeres, esperando ansiosamente apenas pelo momento do dia em que poderia sentar-se em seu grande sofá encapadado, soltar as pantufas de plush no chão e calmamente assistir à sua novelinha das cinco. Essa sim, nunca a deixava na mão.

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Them/Shoes

April 11, 2008 · 6 Comments

Se conheceram no colégio. Ela era a menina tarciturna da classe. Se sentava na segunda carteira, usava óculos, tinha poucos amigos. Ele poderia ser classificado como alguém da turma do meio – nem popular, nem cê-dê-éfe. Um dia fizeram uma prova em dupla, muito provavelmente porque o melhor amigo dele estava ausente e ela não tinha a quem recorrer. Por uma combinação de fatores, tiraram nota máxima. E foi assim que começou. Passaram por uns bocados juntos, viram amizades, amores e temores se criarem e se desfazerem ao longo de anos.

Até que um dia, em um despretensioso happy hour, beberam além da conta, se beijaram, pegaram o primeiro táxi disponível, que os levou ao primeiro motel decente que o taxista conseguia se lembrar naquele momento um tanto quanto constrangedor, fizeram sexo desvairado a noite inteira e depois não descobriram nenhum motivo para que não passassem o resto de suas vidas juntos.

Ele se mudou pra casa dela, levou uma parca mudança – uma caixa com roupas velhas e outra com livros de sebo e todos os seus pequenos tiques  guardados. Se amaram sem muito alarde, poucos momentos de desespero, um amor manso no jogo de cama bordado antes de dormir. Tudo era muito calmo. Caminhavam todas as manhãs em um parque próximo, tomavam banho juntos. Durante as noites ela assistia uma novela, por vezes lia um romance e fazia ponto cruz – um hábito herdado da mãe, enquanto ele passava horas mergulhado em seus livros de História.

Se casaram em cerimônia para poucos convidados, em um pequeno buffet próximo. Algumas de suas amigas antigas compareceram, a mais cotada para pegar o buquê saltou e o fez. O grupo de amigos dele, que variava entre o pessoal da empresa e os companheiros da universidade, circulava, bebendo cerveja na temperatura ambiente e cortando sua gravata em troca de alguns cheques sem fundo dos familiares do casal.  Se despediram mais cedo, malas na mão e os trocados arrecadados e rumaram para Águas de Lindóia, ocasião da lua-de-mel.

Certo dia ele a buscou no final do expediente, a levou em uma pequena lanchonete nas redondezas e, como pode acontecer em um dia perfeitamente ensolarado – o céu fecha e dele despenca uma tempestade de pedrinhas geladas,  entre uma mordida no lanche de salsicha e outra, disse que não a amava mais. Não era outra, não era ela, não era nada, ele não sabia o que era. Somente dizia que não sentia mais nada, absolutamente nada que o motivasse a continuar casado com ela.

Ela derreteu. Por dentro, por fora, por qualquer outro lugar. As paredes do lugar começaram a derreter com ela. Cadeiras, garçonetes, chapas e estufas engorduradas, máquinas de café. Tudo foi virando uma massa só aos seus olhos. Ela se misturou com a gosma de dor, medo, jogos americanos e óleo para fritura. Foram para casa. Ele pediu uns dias para encontrar algum canto onde pudesse acomodar suas duas caixas.

Os dias, que a princípio seriam dois ou três, viraram duas semanas. O coração dela ainda esperava que ele pudesse mudar de idéia, deu o melhor de si para que ele se lembrasse do quão especial ela era na vida dele, e chegou acreditar que realmente o fosse. Ele seguia impassível e ela seguia esperançosa. Inclusive comentou com umas pessoas mais chegadas que estavam se separando, e que claramente era temporário.

Mas não era. Ela acordou um dia e ele não estava mais dormindo no sofá-cama da sala de televisão. Não tinha mais ele, nem caixa, nem sequer o cheiro da sua loção pós-barba barata. Ela precisava sair dali, precisava trabalhar, precisava falar com alguém, precisava saber dele. Precisava dele. Precisava, do verbo precisar.

No trabalho tentou manter a calma e a discrição, mas por dentro ela se contorcia em espamos de impotência. Finalizou algumas atividades pendentes, jogou muitos papéis fora. Saiu pra almoçar com alguns colegas, mal tocou no prato feito. Arroz-feijão-bife-ovo. Voltou sozinha para o trabalho. Ao entrar no elevador apertou o botão do último andar – o seu era o primeiro.

Durante a subida, ela praticamente não pensou em nada, olhou para o pequeno monitor que noticiava os muitos quilômetros de engarrafamento, os índices da bolsa, a temperatura para o final de semana, propagandas, propagandas, propagandas. Mal ouvia a conversa das pessoas que iam desembarcando pelos andares afora.

Plim. O elevador parou e ela se dirigiu ao peitoril de uma ampla janela. Calmamente tirou os sapatos e se sentou ali. Hesitou. Sempre teve medo de altura. Num movimento preciso, se levantou, esticou os braços, respirou fundo e pulou. A queda foi rápida e indolor. Mas ao mesmo tempo durou anos. Durou todos os anos de sua insignificante vida. Cada milésimo de segundo equivalia a um ano. E ela ia deixando para trás nesse vôo de liberdade tudo aquilo que havia meticulosamente guardado.

A infância difícil, a adolescência insuportavelmente só, as inseguranças, as pequenas esperanças, os desejos reprimidos. Tudo ia se soltando dela, saindo pelos poros. Ela gritava alto, aliviada por abandonar tantos anos de uma angústia que não tinha cura. Estava indo de encontro ao maior obstáculo já enfrentado por qualquer ser vivente. Não se sentia covarde, pelo contrário, sentia-se a mulher mais poderosa do mundo. Cansada de esperar pelo iminente chegar, ela escolheu abraçá-lo, envolvê-lo, absorvê-lo.

Sendo assim, pulou.

Categories: contos