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Entries from February 2008

Could we

February 10, 2008 · 10 Comments

A coisa funciona mais ou menos da seguinte forma:
Você, enquanto mulher solteira com uma turma extensa de amigos, freqüenta baladas, seja nos fins de semana, ou até mesmo em uma terça ou quarta qualquer.
É normal, você se arruma, faz as unhas, se depila, usa calcinhas especiais. As confortáveis marrons sem costura ficam renegadas ao fundo da gaveta. Você investe tempo e dinheiro para se tornar uma pessoa mais interessante, mais atraente aos olhos do sexo oposto. Ou do mesmo sexo – dentro das suas devidas preferências.
O que acontece normalmente é que você sai, encontra os amigos, bebe muito, dança sem parar. Eventualmente esbarra em alguém, que no escuro soa levemente interessante e vocês se beijam, desajeitados em meio a todo o empurra-empurra. Em alguns casos, trocam nomes e telefones, ou até mesmo os usuais endereços eletrônicos. Só que na maioria das vezes você entra esbaforida e bêbada em um táxi, segurando os sapatos sujos nas mãos, e vai para casa dormir e amargar uma ressaca solitária no dia seguinte.
E, em um desses dias, você que já está cansada da solteirice, de não ter alguém com quem dividir aquele pote enorme de sorvete no congelador e o minúsculo lençol de malha, sai mais uma vez com os amigos, sem maiores pretensões, sem a esperança do príncipe encantado e seu cavalo branco estarem à sua espera na porta da balada com um buquê de rosas vermelhas na mão. E é aí que a coisa acontece. Não digo que é destino, porque não é nesta palavra mística que reside a minha crença. Você, sem mais nem menos, olha para o lado e vê um garoto que, por algum motivo que talvez Freud explique, te chama mais atenção do que todos os outros zumbis que usam as mesmas calças jeans desbotadas, as mesmas camisetas brancas tamanho P com as mangas dobradas e os mesmos tênis propositalmente surrados.
Vocês se cruzam na fila do banheiro e se medem. Analisam as possibilidades. É, definitivamente, ROLA.
Quando menos se espera, vocês estão se beijando romanticamente no meio de um corredor apertado, com uma música nonsense tocando. Os amigos dele se cutucam, vangloriando sua conquista.
A partir dali, os beijos dão lugar à conversas básicas iniciais. Todo aquele blablabla de o que você faz, de onde veio, para onde vai. E de repente te bate aquela vontade louca de levar aquele moleque rebelde descabelado para sua casa, cuidar dele, fazer ele virar homem, deixar ele entrar na sua vida e bagunçar toda a sua já existente bagunça.
Hoje não, mas no dia seguinte ele vai.
E vocês trepam pela primeira vez. É estranho, constrangido, como todas as primeiras vezes com pessoas que você ainda não tem intimidade, mas que existe a remota possibilidade de não ser aquela a única trepada.
Daí pra frente é só alegria. E essa história todo mundo já conhece. Vocês se apaixonam, começam a passar uma quantidade excessiva de tempo juntos. Abrem a caixa de Pandora e compartilham todos os seus maiores segredos, medos e desejos. Em um dado momento você se vê encurralada a conhecer sua maior rival, a Dona Sogra. E logo mais as tias, primos, amigos de faculdade e uma infinidade de pessoas que a princípio não dizem muito, mas que à medida em que vocês começam a fazer os famigerados planos de se casarem e morarem em uma cobertura com samambaias, passam a fazer parte do seu maior pesadelo. Essa gente toda para o resto da minha vida?!
Em meio a tantas pessoas e probabilidades, vocês dois começam a se perder um do outro. Já não sabem mais o significado do “para sempre” tão almejado.
Vocês, que tanto queriam um ao outro, e tanto se adoravam, já não se conhecem muito bem mais.
Se olham e não se vêem.
E é então que bate o desespero, que toma seu corpo como uma droga de alto calibre e que não te deixa muita escolha a não ser abandonar o barco ou então a alternativa mais estúpida, porém cada dia mais popular.
Vocês, numa noite de sábado qualquer, entediados com a programação da TV, inocentemente resolvem que a camisinha não se faz necessária naquele momento. A pílula do dia seguinte vira a pílula de três dias depois.
Quando se passa um mês e sua menstruação, que nem é tão regulada assim, não desce, você se sente vitimada pela própria imprudência. E se pergunta como pode ter sido tão absurdamente burra. No fundo você sabe que não foi, mas prefere acreditar piamente naquela verdade mentirosa.
Obviamente você opta por um aborto, que lhe parece a solução mais plausível. Mesmo que você nem ele tenham um centavo furado para bancar qualquer uma das opções.
Secretamente, sem compartilhar nem mesmo com a mais fiel das amigas, você imagina como seria seu bebê. Você, que está inchada como um balão, se acha a mais linda das mulheres. E fantasia com o seu bebê. Seu bebê.
Mas a realidade grita, berra, urra com você.
Tudo é bem simples, você consegue o dinheiro emprestado. Seu namorado é um idiota. Alguém que não ele, te acompanha até uma clínica de classe média alta.
Seu namorado é cada dia mais idiota.
E você faz o que antes parecia ser o maior dos pecados. Sim, você, a tão querida filhinha da mamãe, faz um aborto. Deliberadamente interrompe uma vida.
Simples assim, você paga uma fortuna, te dão um remedinho, você dorme, e dez minutos depois, voilà, acabou-se o bebê.
Seu namorado continua sendo um idiota, seus amigos são incríveis e você já não sabe de mais nada. O combo culpa católica mais a frustração do não-bebê te deixam um tanto quanto deprimida – pra não dizer que você fica meio acabadona e perde a vontade de lavar os cabelos.
O pobre do garoto rebelde descabelado continua o mesmo rebelde descabelado do começo da história. Enquanto você, que ainda é uma menina, se depara com a situação mais adulta da sua vida e nutre um ódio enorme do namorado, porque afinal de contas você também quer ser rebelde e descabelada.
Um belo dia você manda o idiota às favas e volta a ser solteira, volta a esperar por alguém com quem dividir o pote de sorvete e a brigar pelo controle remoto.
Você encontra outro garoto e ele te faz feliz. Você promete a si mesma que não vai se iludir mais. E ele realmente te faz feliz.
O outro garoto, aquele, o descabelado e rebelde sem causa, ainda diz que sofre de saudades de você. Ainda diz que você é a mulher da vida dele. E que vocês ainda tem muitas coisas pra viverem juntos. E você ri. Ri dessa ingenuidade do menino. E sente inveja dele por não ser assim, tão alheia a tudo que se passa.
Alguns amigos em comum comentam que ele agora está namorando outra pessoa também. Uma menina que não tem nada a ver com você, mas que a sogra adora. Você finge que acha engraçado, faz até uma piada qualquer. Na verdade você sente um misto de vazio e pena, e até chega a torcer para que o descabelado finalmente tenha encontrado o seu pente.
E é isso. É bem assim que as coisas são e com certeza é assim que elas serão por muito tempo.

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