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Entries from January 2008

January 29, 2008 · 4 Comments

Talvez as coisas sejam complicadas demais porque quando a água bate na bunda, o bicho pega e a cobra fuma, eu simplesmente aperto um botão aqui dentro, fecho os olhos e me teletransporto para o outro lado do oceano.
As contas a serem pagas, o trânsito com chuva, o câmbio e a queda da bolsa vão ficando cada vez mais embaçados na minha visão.
E eu me dou ao luxo de passar horas me vendo caminhar por ruas que eu nem nunca pisei. Encontro amigos em cafés aconchegantes e fumamos e conversamos até anoitecer. Pego um ônibus e um metrô e vou lendo meu livro preferido no caminho para casa, ouvindo alguma coisa qualquer no iPod.
Eu também sei como é minha casa lá do outro lado do mundo. As paredes são brancas, as janelas são grandes e tem o parapeito largo. Tenho um sofá azul marinho de veludo e uma estante com muitos livros e cedês. O piso é de carpete.
Quase todas as noites tomo banho de banheira com espuma e muitos sais, com uma taça de vinho e “Sweet Jane” com Cowboy Junkies no repeat.
Depois do banho me sento na janela e fumo um cigarro, contemplando minha rua e as pessoas que passam por ali. Imagino pra onde elas podem estar indo, de onde elas estão vindo. Algumas sorriem, felizes, caminhando sozinhas. Outras seguem taciturnas, provavelmente querendo chegar logo em qualquer lugar. Faço isso todas as noites sem me cansar. Sinto um misto de gratidão, orgulho e uma felicidade sem tamanho por estar ali.
Do lado de cá alguém me chama, ou o telefone toca, e eu não quero sair de dentro do meu sonho, não quero enfrentar as pessoas que me chamam e me ligam sem parar. Não quero fazer o que é preciso para estar efetivamente vivendo todas essas coisas.
Só quero meu edredon, meu cachorro de pelúcia e meu sonho. Só meu.

Categories: random

Sobre o trivial feijão-com-arroz

January 20, 2008 · 10 Comments

Ontem tivemos mais uma daquelas discussões inúteis que todos os casais tem, e que na maioria das vezes não quer dizer muita coisa, discutimos apenas pelo esporte. Pela necessidade de mostrar para alguém que em algum momento qualquer que seja da vida, estamos com a razão, que aquela parede na cena do assassinato do filme era azul-petróleo e não verde-escuro. Acabamos nos magoando como em todas as outras vezes, e dizemos coisas que na verdade não sentimos, ofendemos familiares pedantes com problemas financeiros, e quando não conseguimos mais argumentar sobre a posição solar ou a vida útil de um jogador de futebol, recorremos aos atributos físicos. Ou à falta deles.
A noite que já estava planejada para ser um sábado com um filminho que saiu na crítica do caderno de cultura do jornal com cinco estrelas e depois um sexo acolhedor, termina por ser mais uma daquelas situações que nos deixa com um nó na garganta. Um nó chega a ser pouco. Um elogio até. Sentimo-nos como mães prestes a parir um filho de quarenta e três semanas de gestação. O feto já está com lodo ali dentro.
Pensamos em todas as pessoas que estão bebendo e se esbaldando em milhares de baladas fabulosas com as pessoas mais fabulosas e as músicas mais fabulosas e nos odiamos silenciosamente. Cada um virado para um lado da cama, remoendo cada palavra utilizada durante a batalha. Sim, porque uma batalha neste caso consiste em duas partes diferentes atirando até batatas um no outro se for pra causar a humilhação seguida da derrubada.
Obviamente não conseguimos dormir. E quando a raiva vai passando e o corpo vai esfriando, pensamos em quão desnecessário foi todo o evento e sentimos uma vontade louca de nos viramos um para o outro e nos atracarmos como os animais que originalmente somos. Nos mordendo, arranhando e dizendo todas as barbaridades e baixarias que já chegamos a ouvir.
Mas já é tarde demais. Estamos machucados, feridos, com alguns pedaços essenciais faltando.
Vamos tentar dormir sem nos encostarmos? Vamos tentar fazer as pazes? Ele vai se levantar, catar suas coisas e ir embora? Será que tomo um dramin e durmo um sono estranho sem sonhos, babo no travesseiro e no dia seguinte vamos almoçar com meus pais como se nada tivesse acontecido?
Preparo um discurso impecável, em cujo texto explicito tudo o que sinto em relação à ele e em relação à forma como eu acho que ele deveria agir, e que ele deveria me respeitar porque eu sou essencialmente como sou e ninguém tem o direito de querer me mudar, e que o amo como ele é, mas que ele não pode deixar de obedecer aos princípios básicos da convivência e todo um monte de frases feitas que já nem sei mais quais eram.
Os pés dele me tocam sem querer e eu sinto uma profunda melancolia por estar vivendo esse drama interminável mais uma vez. Ele se vira e diz que me ama, eu o beijo.
Fazemos o previsto sexo acolhedor. Em silêncio. É possível ouvir os burburinhos vindos da rua.
Nos abraçamos, sentindo aquele gosto familiar na boca, iludidos que essa vez foi a última.
E inocentemente acreditamos que aquela vez foi mesmo a última.
E assim a madrugada segue o seu curso, e o tempo passa, e as coisas podem ou não deixar de acontecer. Dormimos legitimamente felizes.

Categories: rotina

Dancing to the radio

January 18, 2008 · 3 Comments

Hoje decidi ouvir aquele álbum que ouvíamos incessamentemente quando você ainda existia. Desde que você sumiu, nunca mais tinha conseguido fazê-lo.
Primeiro porque, como você sabe, essa minha mania de gastar as músicas que gosto muito não me deixa tolerá-las por muito tempo depois. E segundo porque, obviamente, elas eram muito significativas pra mim. Marcaram o relacionamento mais breve e intenso que já consegui viver.
Respiro fundo, minhas mãos tremem e a agulha vacilante toca o vinil. Alguns chiados e a melodia começa a ecoar e a tomar todo o ambiente antes silencioso.
Sensações me voltam de súbito.
E eu nos vejo dançando no meio da sala, levemente embriagados, talvez pelo champagne barato ou ainda mesmo por aquela ingenuidade apaixonada que nos fazia amar tão despudoradamente, sem medo do incerto.
Errando passos de dança estranhos e desconjuntados até o fim do lado A.
O lado B sempre foi o lado mais lento, a dança era outra, e até hoje eu me lembro perfeitamente de cada detalhe seu, de como você tirava minha roupa bem devagar, no ritmo de cada música que tocava.
Chego a sentir seu cheiro aqui.
Esse álbum é a única lembrança que eu tenho de você. Desde que você sumiu eu nunca mais tive coragem de ouvi-lo.
Sinto sua falta.

Categories: contos

Tchã-rã

January 17, 2008 · 2 Comments

Novidade a caminho…!

Categories: Uncategorized

Eu sou feliz

January 7, 2008 · 5 Comments

Dia desses estava eu numa fila interminável de banco, pensando na vida, pensando nas contas, pensando em como as pessoas suportam ficar tanto tempo de pé contando com a boa vontade de caixas frustados e mal pagos, quando ouço uma voz estridente ao fundo. Pensei comigo que deveria ser uma daquelas pessoas que adora o coletivo, e vamos nos unir contra a burocracia do país e toda aquela coisa e decidi me virar para trás só pra ver a expressão de cidadã engajada que emitia os brados por civilidade. Coincidentemente no momento em que a olho, ela me olha também.
Era Maristela, uma antiga conhecida, dos tempos de faculdade, se não me engano. Depois de todos aqueles rodeios infinitos das nossas obrigações sociais de cada dia – como você vai, vou bem e você, vou muito bem também e você, e o papagaio do vizinho, a sogra e os filhos – noto que ela usa um daqueles lúdicos buttons ‘quer perder peso, pergunte-me como’.
Maristela, uma otimista de carreira, agora trabalhava, segundo ela, ‘em prol do bem-estar da humanidade’ vendendo toda espécie de tranqueiras que prometia emagrecimento, beleza e até mesmo sucesso.
Desde que a conheço, Maristela, aficcionada por auto-ajuda, sempre distribuiu aos colegas pequenos cartões que ela mesma confeccionava em seu programa arcaico de computador, com mensagens positivas de amor ao próximo, amizade e esperança. Ela acreditava em praticamente tudo que lia sobre o assunto. Acreditava no poder da mente, acreditava no poder da simpatia, no algo mais e na alegria. Mas principalmente, Maristela acreditava no ser humano.
‘Onde já se viu gastar rios de dinheiro com um analista que suga tudo que você tem, enquanto temos livros maravilhosos que podem te ajudar nessa busca incessante pela felicidade?’
Atualmente ela anda mais moderna, claro. Usa o Orkut como forma de divulgação do otimismo enquanto meio de vida. Na descrição de seu perfil, inúmeras citações dos nomes mais famosos do meio. Não bastando, ela manda recados aos amigos diariamente, ‘pequenas notas de força e incentivo aos que amo’, como ela mesma diz. Maristela ama muita gente. Ela tem mil amigos no site de relacionamentos. Impressionante essa Maristela. Conseguiu fazer o que diversos adolescentes tentam desesperadamente fazer por meses a fio. Lotou o seu perfil.
Costuma dizer que, apesar das adversidades dessa vida tão sofrida, se considera uma pessoa muito feliz.
Fico feliz por ela, a Maristela.

Categories: contos