[anyothershoes]

Entries from November 2007

Sombra sim, sombra não.

November 22, 2007 · 2 Comments

Glória era uma criança pequena. Muito pequena.
Todas as pessoas a conheciam como Glorinha.
Ela andava pra cima e pra baixo com uma sombrinha que antes fora de sua mãe, Dona Mercedes.
Era uma sombrinha antiga, com cabo de madeira em formato de cobra.
Com chuva, sol, vento ou qualquer outra condição climática, lá ia Glorinha toda pequenina com sua sombrinha.
Todas as manhãs saía com Dona Mercedes. Alguns dias iam à feira, outros dias à igreja, muitas vezes iam ao parque, o lugar preferido de Glorinha em sua curta existência.
Por ser muito pequena e estar sempre debaixo da sombrinha, Glorinha mal sabia como eram os rostos das pessoas que encontravam nos trajetos diários. Apenas conhecia os sapatos.
Ela reconhecia qualquer pessoa que fosse pelos sapatos. Inclusive o estado de espírito do possuinte do calçado em questão.
Por exemplo, o Padre João. Ela tinha verdadeira antipatia por ele. Primeiro porque ele usava sandálias gastas de couro que emanavam um cheiro azedo, quase que insuportável para as suas jovens narinas. E segundo porque suas unhas eram enormes e sujas. Como confiar em alguém com pés e sapatos tão mal cuidados?
Tinha também a Dona Julieta, amiga de sua mãe da época do internato. Dona Julieta usava sempre sapatos fechados, brilhantes, de verniz vermelho. Sua voz e humor eram bem condizentes com os sapatos, era o que pensava Glorinha. Tudo muito escandaloso.
E quanto às outras crianças, bem, essas eram todas iguais. Os calçados ortopédicos eram de uso obrigatório em seu colégio, o que fazia com que ela visse todos os seus colegas da mesma forma. Pisantes brancos idênticos com formas desconfortáveis.
Através dos pés e dos sapatos, Glorinha também conseguia identificar as expressões do interlocutor sem ao menos ver seus olhos. Pressa, tristeza, alegria, cansaço, apatia. Aliás, Glorinha não sabia distinguir sentimentos através dos olhares.
Um dia, enquanto aguardava sua mãe ao término das aulas, uma chuva torrencial despencou do céu. Daquelas sem aviso prévio. Sua sombrinha já estava aberta, empunhada, preparada para qualquer intempérie. Mas essa tempestade foi diferente, como Glorinha nunca havia vivenciado.
Era chuva de vento. Com rajadas laterais.
Dona Mercedes, para o infortúnio de sua filha, estava presa no trânsito em consequência da queda de uma árvore duas quadras antes do colégio.
A chuva ia ficando cada vez mais forte, Glorinha já não tinha nem mais uma mínima parte de seu pequeno corpo seca. Estava ensopada. Foi quando de repente ela se virou para o lado, acreditando ter visto o carro de sua mãe vindo em sua direção, que aquele vento sul veio de uma vez e levou sua sombrinha embora. Uma questão de segundos e lá estava ela, voando alto, para bem longe de Glorinha.
Depois disso a menina nunca mais foi a mesma. Nenhuma sombrinha a satisfazia, ela sempre arrumava um jeito de jogar fora todas as novas que porventura ganhava.
Glorinha, que nunca foi lá muito comunicativa, sempre escondida naquela sombra, não se entendia mais consigo mesma. Não confiava mais em seus julgamentos. Já não sabia mais definir uma pessoa pelos seus sapatos. Haviam olhos fitando-a ao mesmo tempo em que tentava entender o que os pés queriam dizer. Aquilo era muito desconcertante.
Então ela começava a tagarelar. Falava sem parar, como um pequeno papagaio. Repetia coisas que ouvia na televisão, no rádio, conversas entre seus pais e até mesmo o que a velha empregada Maria resmungava atrás do tanque.
Com o passar do tempo ela parou de imitar pessoas e começou a inventar histórias mirabolantes, de princesas, unicórnios, labirintos encantados e passagens secretas.
Ela criava um ponto fixo e era pra lá que olhava, sem nunca, jamais, mirar nos olhos do ouvinte.
Olhar para os sapatos então, nem pensar. Tirava a sua concentração, seu equilíbrio.
Glorinha cresceu e continuou assim.
Sombrinhas só em dias de chuva, em casos extremos. Sapatos, sempre. Mas só os dela.

Categories: shoes

Lingered on

November 13, 2007 · 1 Comment

You say ‘good morning, meu amor’.
I say ‘bom dia, my love’.
You beg me to stay. I tell you I’m leaving.
‘I’m wasting your time’, I say.
‘Please, just five more minutes’, you ask.
And just like that, another year passes me by.

Categories: random

Hunger hurts…

November 8, 2007 · 1 Comment

Não sinto meus pés.
Ou é o chão que me falta?
É como se eu flutuasse.
Vejo as pessoas caminhando normalmente.
Não consigo acompanhá-las. Não sinto meus pés.

Só sinto uma inquietação muito grande.
Inquietação essa que pode ser traduzida em fome.
É isso que eu sinto.
Muita fome.
Estou tremendo de fome.

Chega a me faltar a capacidade de respirar como as outras pessoas fazem.
Preciso comer.

Me alimentar do que for mais temperado, quente, suculento.
Quero comer com as mãos.
Me refestelar num banquete que dure dias, meses.
Que não tenha fim.

Me esbaldar até a exaustão.

Não quero mais sentir meus pés.

Categories: random

Adeus.

November 5, 2007 · 3 Comments

Naquele dia fatídico eu saí da sua casa desbaratado, te dizendo barbaridades, acordando os vizinhos, pisando no rabo do gato e cuspindo em mim mesmo.
Essa parte você já sabe.
O que você não sabe é que eu não fui embora. Eu não consegui ir.
Me sentei na calçada e fiquei lá, horas a fio, segurando um choro que explodia na minha garganta. Eu não podia chorar. Verter lágrimas era a última coisa que eu poderia fazer naquele momento. Ainda mais eu. Você sabe muito bem como eu sou. Eu sou homem, eu não choro. Nunca.
Aquela aliança maldita me queimava o dedo. E eu não conseguia parar de olhar pra ela, e não conseguia tirar ela da minha mão.
O que foi que você fez com a gente? Eu te amava tanto. Tão cegamente. Eu não vi o golpe vindo. Eu não estava preparado pra isso. Na verdade eu nunca esperava isso de você.
Fiquei ali respirando sofregamente até o dia clarear. Me levantei. Minhas pernas já não estavam tão dormentes mais. E eu já tinha forças pra tirar aquele anel do dedo e jogá-lo longe. Joguei com tanta força que mal ouvi o barulho dele caindo no chão.
Olhei pra cima. Pra sua janela. Que era a nossa janela.
Os gatos estavam lá, me olhando assustados por entre as grades.
Pensei no que você estaria fazendo. Dormindo? Chorando?
Senti uma vontade absurda de voltar. De deitar na cama com você, com os gatos, os edredons e os travesseiros. De ter uma borracha que apagasse tudo aquilo.
Ou um remédio que fizesse toda aquela dor passar.
Me lembrei daquele filme que você tanto gosta. Queria poder deletar tudo aquilo da minha memória.
Mas não queria deletar você. Isso não. Você foi a coisa mais incrível que já me aconteceu.
Como você teve coragem de me machucar tanto?
Balancei a cabeça pra espantar os pensamentos confusos. Suspirei e fui andando.
Uma chuva de verão começou a cair em pingos fortes.
As lágrimas foram escorrendo sem eu perceber. Quentes, salgadas. Se misturando com a chuva fria. Levando embora um pouco daquele drama e sofrimento desmedidos.

Bom, é isso.
Achei que você quisesse saber.
Tchau, então, né?
Se cuida.

Categories: random