Muito prazer, sou Keilla Camille do Rosário.
Nasci no interior do interior da Bahia e vim pra capital ganhar a vida.
Até hoje eu não sei se eu ganhei a vida ou se foi a vida que me ganhou.
Faço ponto no local mais badalado da cidade. Você deve conhecer, é bem ali entre a Chaves e a Soares Cruz. Só as meninas mais bonitas podem fazer ponto ali. Ordens do Costa.
Não gosto de dizer que o Costa é cafetão, parece desrespeito. Ele é meu amigo, me ajuda muito.
Tudo que eu tenho devo à ele. Meus peitos, meu cabelo, minha barriga retinha, o bronzemento semanal. Fora todas as roupas e sapatos que ele me dá de presente. Coisa fina, de qualidade. Com o Costa não tem pão-duragem.
Só teve uma vez que eu e o Costa brigamos.
Foi quando apareceu o Bruno. O Bruno era lindo. Menino bem criado, de família rica. Cismou comigo.
Eu deixava ele fazer de tudo. Até beijo na boca. Ele me olhava com aquela carinha de cachorro caído da mudança pedindo beijo. Como eu não ia dar?
Ele me pegava ali na esquina da Chaves toda quarta depois das onze. E eu passava a noite com ele. Tinham dias que ele só queria me beijar. E eu adorava ficar passando a mão naquele cabelo lisinho dele. Cabelo liso é coisa de Deus, você bem sabe.
Um dia ele disse que queria se casar comigo. Ficou louco. Descobriu o endereço do Costa e foi lá falar com ele. Falou que pagava o que o Costa quisesse pra me tirar dali.
O Costa não gosta de moleque. Ele dizia que o Bruno era moleque mimado.
Imagina só a cara que ele fez quando o Bruno chegou com aquela conversa. Eu não tava lá, mas a Janeth me contou que ele ficou vermelho, com as veias da testa saltadas. Isso nunca é bom sinal.
Até hoje não sei o que aconteceu com o Bruno.
Na época eu chorei muito. Enfrentei o Costa.
Ele me sentou numa cadeira de piscina que tinha no quintal da casa dele. Nem tem piscina lá, mas ele não larga mão da tal cadeira. O Costa é meio metido à besta, sabe? Mania de grandeza.
Enfim, ele me sentou lá enquanto eu berrava com ele, ’seu descabaçado, lazarento, ordinário!’. Me deu um tapa servido na cara. Me mandou fechar a matraca e eu fechei, apanhar dele já era demais.
Ele me disse que era pra eu afastar aquelas idéias. Que ele me dava tudo, que eu era a melhor menina dele. Eu tinha tudo na mão. Pra que largar tudo por causa de paixão?
Paixão, dizia ele, é um monte de química errada na nossa cabeça, misturada com tesão e uma conta bancária recheada. O problema é que a química faz a gente ter idéias bestas, era o que ele falava.
Esquece essa bobagem, keillinha, meu amor.
A verdade é que o Costa está certo. Com o dinheiro que eu ganho, posso ter e ser tudo que eu quiser. Posso ser apaixonada, mãe, filha, prima, amiga, mulher. No dia seguinte acordo e faço tudo de novo. Pagando bem, então. Levo até à Lua.
Essa coisa de paixão só deixa a gente com a cabeça virada. Só serve pra essa gente de novela, de filme.
Ontem mesmo tirei quinhentos mangos com um sujeito que queria que eu desse de mamar pra ele. Botei os peitos pra fora e paguei o aluguel. Simples assim.
É, o Costa é mesmo um bom amigo.
Pronto, tá bom, né?
Pode desligar seu gravador aí. Por hoje já deu.