terra perdida

tenho um pouco de nojo
do lugar onde trabalho
parece a casa da velha broni que
fechada por anos acumulou
cheiro de tempo e morte
impregnados nas manchas marrons
ainda visíveis nas paredes recém-pintadas;
todos os talheres têm ferrugens e
a pia tem crostas eternas de gordura
no fundo da privada vê-se um
lodo grosso onde vivem colônias
como na atlântida
os teclados dos computadores foram
contaminados pelos germes já tão
antigos que conversam entre si
como árvores;
de mês em mês as
pessoas ganham
tons de verde musgo
é muito sutil e elas nem percebem
mas a cada dia que vou embora
e volto no outro a seguir sinto
que as carnes brancas das suas
raízes sem pátria estão cada vez
ficando mais verdes

oi, lana

tenho me dedicado nos últimos dias ao ultraviolence da lana del rey como não me dedicava a disco nenhum há tempos. debulho melodias & letras noite & dia. quero entender o que ela quer dizer, quero entender como ela ignora a pecha de feminista e ao mesmo tempo lança um álbum que consegue ser tão feminista e tão feminino. fuxiquei por aí e fiz alguns achados:

- uma bela crítica do ultraviolence
li crítica do pitchfork e fiquei frustrada porque ela não corresponde a quase nada do que sinto ao ouvir o disco (fora as decadências de NMEs e guardians da vida), então deduzi que nos textos escritos por mulheres conseguiria encontrar pelo menos 01 em que alguém tivesse se dedicado a entender o que o universo criado por lana pode significar. dei sorte, a crítica é ótima. uma citação: A Clockwork Orange used the word “ultraviolence” to refer to gang beatings that lately seem to count as just regular violence. I’m not sure that’s what Del Rey is referring to here. She uses the word to sing about physical aggression, but the ultimate violence seems like it would be erasure, silencing, negation, the stuff you don’t hear about because it’s an absence by nature. You can see it if you read On the Road or listen to Berlin and try to imagine the inner lives of women who are mentioned in passing, who exist only to sculpt the stories of men. That negative space is its own kind of violence. Lana Del Rey steps into the shadows it leaves. She has power there, whispering old secrets, giving voice to characters who never got to speak for themselves.

- uma boa reflexão sobre o que lana acha do feminismo
também da autora da crítica acima, sasha geffen, que, intrigada com o interesse de lana pelo espaço sideral, resume bem algumas das questões sobre o ativismo feminista e os limites entre vida pessoal & pública de um artista no que eu considero um bom texto. destaco uma frase da sasha: I’m far more concerned with feminism as an action than feminism as a buzzword.

- um show
ao vivo no planeta terra, a tenra voz de lana quase some com a cantoria dos fãs — muita gente diz que é porque é fraca mesmo, mas olha, não estou aqui pra julgar isso. dá pra ver nos closes que grande parte do público é formada por jovens rapazes gays. fico com a sensação de que as letras dela ultrapassam as barreiras do que tipicamente corresponde ao chamado ‘universo feminino’ e falam sobre sentimentos de amor, entrega, dor, perda, não-pertencimento etc. fazia tempo que não via tanta gente cantar todas as músicas num show.

- um delicioso namorado italiano
além de ser o dono dos dedos grossos que lana delicadamente lambe durante o clipe da faixa “ultraviolence” e autor do mesmo, o gostoso do italiano também fez o clipe de “jealous” da bionça (pensei que ninguém conseguiria a proeza de fazê-la ficar half naked na sua penthouse, mas olha lá que danado). para ele, poupo nas palavras e folgo na imagem:

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***

desde o lançamento de video games (três anos se passaram e o vídeo já foi visto mais de setenta milhões de vezes), fiquei dividida pelo o excesso de opiniões dadas ao léu pela internet, o amontoado de memes (que só supera as piadas feitas com a velhinha do ecce homo) e aiai minha pós-modernidade, e nunca mais dei atenção a nada do que ela lançou (mentira, que o clipe de blue jeans tem ótimos momentos). mas que maravilha é viver, que maravilha é crescer: percebi que não existem pessoas entre os meus ouvidos e os fones: salvo alguns mortos & feridos, o disco é lindo (e agora sinto que já posso ouvir outra coisa).

oh, baby,

exercícios de distância

foto (1)

An Exercise In Love

for Jackson Allen

My friend wears my scarf at his waist
I give him moonstones
He gives me shell & seaweeds
He comes from a distant city & I meet him
We will plant eggplants & celery together
He weaves me cloth
 
                   Many have brought the gifts
                   I use for his pleasure
                   silk, & green hills
                   & heron the color of dawn
 
My friend walks soft as a weaving on the wind
He backlights my dreams
He has built altars beside my bed
I awake in the smell of his hair & cannot remember
his name, or my own.
 
Diane di Prima

 

tens a pele de mil elefantes

tentando desmontar uma lógica de vida procrastinatória em que o acúmulo de escapadas de cinco minutos ao facebook se transformam em horas e dias de compromisso sério com a internet. o que fazer sem tantos links pra ler, mensagens pra responder, pessoas que preciso ver se ainda estão vivas, simulacros de vidas que sequer me interessam de maneira prática? olha, eu até queria dizer que nesses quase dez dias de desligamento do facebook consegui escrever muitos poemas e terminei a proposta do tal livro e avancei na ideia do tal mestrado. mas nem foi bem isso que aconteceu já que acabei substituindo o vício por alguns paliativos safados: remodelei minha timeline do twitter, do instagram (que agora também abandonei), do feedly, do tumblr, do youtube etc. de todo modo, consegui responder e-mails datados de 01 mês e não 05 como é do costume e acabei por escrever & ler coisas produtivas, sim, mesmo que abaixo do volume desejado. (cá entre nós: pau no cu do volume desejado). já bem dizia o joão antônio, é uma luta que não acaba, essa que travamos com a literatura.

numa outra nota, estou sem notícias da minha família há mais de uma semana. sumiram virtualmente, assim como os meus mil conhecidos e o kim jong-un. uma hora aparecem. todos de bengala.

e olha lá que o sr. dunbar estava certo:

There’s no question, Dunbar agrees, that networks like Facebook are changing the nature of human interaction. “What Facebook does and why it’s been so successful in so many ways is it allows you to keep track of people who would otherwise effectively disappear,” he said. But one of the things that keeps face-to-face friendships strong is the nature of shared experience: you laugh together; you dance together; you gape at the hot-dog eaters on Coney Island together. We do have a social-media equivalent—sharing, liking, knowing that all of your friends have looked at the same cat video on YouTube as you did—but it lacks the synchronicity of shared experience. It’s like a comedy that you watch by yourself: you won’t laugh as loudly or as often, even if you’re fully aware that all your friends think it’s hysterical. We’ve seen the same movie, but we can’t bond over it in the same way. (…) “We underestimate how important touch is in the social world,” he said. With a light brush on the shoulder, a pat, or a squeeze of the arm or hand, we can communicate a deeper bond than through speaking alone. “Words are easy. But the way someone touches you, even casually, tells you more about what they’re thinking of you.” (…) Until social media can replicate that touch, it can’t fully replicate social bonding.

p.s.: quem puder vota na dilma por mim que estou longe e sem acesso ao sistema eleitoral brasileiro por questões meramente burocráticas.

love is a state of mind

 

pero la separación es artificial

“Llevamos siglos separando ficción y realidad con un biombo imaginario. El biombo —gran invento japonés— divide en dos espacios una habitación y nos ofrece la posibilidad de diferenciar las dos áreas. Pero la separación es artificial, puesto que oculta que, de hecho, hay un solo espacio. En la narrativa, hay también un solo espacio, pues nada hay tan equivocado como creer que se puede narrar lo que sucede en la vida cuando en realidad contarlo exige siempre inventar”.

do blog alucinado do enrique vila-matas