fidelidade

Porque não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o livro do não
                 trabalho
e diz cor-de-rosa adiante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor-de-rosa em segredo a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta porem ovos
e disseram ao poeta estas são as galinhas que tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho

a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso     só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore

Cesariny

ao tio

tive um tio poeta e cronista, o tio zé. irmão mais velho do meu pai, vascaíno como ele; fã do pessoa e do miguel torga, o poeta da terra do pai, meu avô tuga. tio zé tinha heterônimos como o pessoa: zanoto — o mais famoso, krug pilard, p.h. xavier e julio da barca. não me lembro muito dos escritos dele, na época não entendia o que era poesia. o que mais me fica na memória são as cenas em que ele e minha tia dançavam felizes pelas festas afora. sentia vergonha e liberdade quando os via assim, que dançaram juntos até os cabelinhos branquearem todos, até o fim. encontrei algumas poucas coisas dele na internet:

12. Já ouvi alguém dizer que, pra melhorar, tem primeiro que piorar. Acredito que seja um negócio meio perigoso.

§

Nas horas pesadas, cinzentas,
um pássaro triste,
de canto melancólico,
anuncia um estar no mundo,
que entristece e comove.

§

Quando o flash estourou
eu
fechei os olhos
e vi
uma chuva de estrelas…

§

2. Fim de semana com familiares na Fazenda Mascatinho, no município de Varginha. O barulho do riacho e passarinhos revoando e cantando. Levei comigo para a Fazenda “Fragmentos de um discurso amoroso”, de Roland Barthes. Consegui ler umas 90 páginas. Geralmente, na Fazenda, a preguiça pega a gente. Segundo Barthes, “O discurso amoroso, ordinariamente, é um invólucro liso que adere à Imagem, uma luva suave envolvendo o ser amado. É um discurso devoto, bem-pensante. Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga; um tremor revira minha própria linguagem.”

um bilhete para cluj napoca

ontem bebi três copos de sangria e uma cerveja de balde que custou um euro e dez. um dos meus melhores amigos foi embora de lisboa hoje às quatorze e cinquenta e cinco. o taxista que me trouxe veio o caminho todo tentando me consolar e disse que tem um fraco por mulheres tristes. quase confessei a ele o meu fraco por taxistas, mas estava mesmo triste e achei dessa vez podia deixar passar a investida. agora me ponho a pensar: e se fosse esse o taxista da minha vida? tenho esse hábito de deixar passar as coisas bonitas e me agarrar às feias. só que isso não vem ao caso agora; o meu amigo foi embora e isso é triste como o caraças.

henry david thoreau dizia que:

 

The price of anything is the amount of life you exchange for it.

é mesmo um acertado, o senhor.

 

 

fera na selva

não se podia pedir a uma mulher que partilhasse esse estado de convicção, apreensão – a obsessão, enfim, que o dominava e determinava todos os seus actos. havia nas circunvoluções dos meses e anos iminentes qualquer coisa que se preparava para lhe sair ao caminho, como uma fera pronta a formar o salto na selva. pouco importava que a fera estivesse destinada a matá-lo ou a morrer. o certo era o salto inevitável da criatura; e a moral da história era que um cavalheiro não levava uma senhora a caça ao tigre. com esta imagem acabara por formular a sua vida.

henry james, a fera na selva

 

à janela

I said the forest’s only part of a tree.
Who needs the whole girl if you’ve got her knee?

(que poema lindo, benza deus)

(está em 5:42)

verão

The Girls

That day the boys
took us quickly.
They took us calmly.
It was not in our beds
or in the backseat 
of a car or in a field
on a blanket.
They took us
with the magnificence
of their bodies.
They did not know 
that when we watched
them make a play with skill and grace,
like a player mastering
the chess pieces on a board, silent
guardians of their own 
sacred positions, 
they had us.
Their bodies
were like fortresses,
their minds 
half-barred windows.
They took us with intensity.
They took us
eager and as they took us
we knew we were different.
What we liked most
was their strength,
the throbbing 
muscles in their necks, 
the way their callused
hands gripped
the bat, ready to bear down,
ready to get some.
They did not know
it was enough to 
find us with their eyes
across the field 
behind the gated fence
when the air smelled
of manure and rotting grass
when we did not yet
know we wanted them.

Jill Bialosky