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Sexta-feira, 12

June 12, 2009 · 3 Comments

Finalmente a sexta-feira chegou. Estou sentada no interior de um café de esquina com ares europeus. A grande poltrona de couro e a iluminação aconchegante aplacam minha ansiedade, enquanto tento segurar a xícara de cappuccino com as mãos trêmulas. Não faço ideia quanto tempo eu espero por essa maldita sexta-feira – desde o domingo anterior, talvez. De qualquer maneira, soa como uma eternidade. Observo o zanzar eriçado dos jovens garçons e seus cabelos universitários despreocupados e deixo rabiscos num guardanapo estilizado. A caneta desliza no papel que prontamente absorve sua tinta vermelha. Em oito meses de correspondências nunca trocamos cartas físicas, postais ou bilhetinhos, então senti vontade de experimentar sua sensação ao escrever minhas palavras à mão. Sou canhota, você provavelmente é destro, como a grande maioria. Na verdade, eu nem sei, nunca tive curiosidade de perguntar, apesar de imaginá-lo com um caderno no colo, um cigarro na mão esquerda e uma caneta comum na direita. Você me parece um boêmio. Em alguns dias, penso que você me escreve vestindo uma camiseta branca com uma estampa neon bastante desbotada, de malha gasta, com alguns furos ocasionais. Uma caneca de café ou uma taça de vinho ao lado do monitor. O que estará escrito em seus post-its? Vejo um cinzeiro cheio de bitucas de cores diferentes, uma delas manchada de batom. Eu nunca disse, mas sempre gostei de te visualizar no mesmo ônibus que eu, no trajeto de volta para casa. Você se senta na cadeira atrás da minha e, algumas vezes, se inclina em direção à minha nuca e sente meu perfume. Sempre me viro, tenho certeza que é você, mas geralmente só vejo um semblante cansado de uma dona de casa. Ou um contador, professor, corretor, invejoso, advogado, barista, desempregado, amante, estagiário, mártir, sacoleiro, e até algum incauto feliz. Nunca você, uma pena. Lembro-me deles enquanto espero, sentada confortavelmente na grande poltrona de couro, soprando minha bebida. Levanto os olhos a cada pequeno badalo do sininho da porta da rua. Agora é você quem chega, cabelos desalinhados e o sorriso que eu nem sabia seu, só imaginava nesses tantos hiatos na minha caixa de entrada.

*Texto originalmente publicado na minha coluninha Oh, well na Revista PIX.

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Das alamedas

June 5, 2009 · Leave a Comment

As domésticas dos Jardins saem às ruas logo cedo, caminham com cachorrinhos vestidos em xadrez. Na porta da charmosa padaria, um banco de praça onde os cães são devidamente estacionados. As domésticas perguntam pela próxima fornada: já tá saindo o pão quentinho, aí? Elas portam bolsinhas com miudezas, moedas e cigarros de palha. Usam óculos de grau com armação esbranquiçada presos à corretinhas de miçangas coloridas fazendo a volta no pescoço.  As domésticas dos Jardins passam os olhos pelas notícias dos jornais jogados no balcão da charmosa padaria enquanto, resignadas, aguardam a próxima fornada. Suas vozes são roucas, elas cheiram à musk e palha queimada, usam batons em tons de vinho e assoviam canções de amor. Os cachorros, ansiosos, se conversam, se cheiram e se latem. Corre com esse pão, amiga, que a patroa tem fome, a patroa tem pressa, corre.

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Missivas não-terminadas e não-enviadas – vol. 12

May 21, 2009 · 4 Comments

As coisas por aqui vão normais, como sempre foram. Mamãe vai bem, Papai também. Essa noite perdi o sono e pensei em te escrever qualquer coisa, pensei em me levantar e despejar tudo no papel, mas acabei dormindo e me esqueci de tudo que pensei. Mas e aí? E aí que eu já mencionei o entupimento do meu banheiro. E aí que ele prossegue entupido na vida, mais uma cruz a se carregar e etc. O que acontece é o seguinte: como sabemos, eu moro num prédio de 1932, onde tudo entope, tudo mofa, as paredes esfarinham e os vizinhos de cima dançam tango toda noite. E bem no meio do banheiro tem um ralo, que fica embaixo da máquina de lavar, e que está diretamente ligado aos canos da banheira e da torneira. Em algum momento entre a banheira e o ralo, um coágulo se formou. A água que deveria escoar pelos canos afora e seguir seu curso até o mar, volta por debaixo da máquina, alagando praticamente toda a superfície da minha casa, formando uma cena digna de filme de naufrágio de navio. Pergunto-me onde estarão os botes e os coletes salva-vidas. A situação já vem vindo caótica há uns dois meses, mais ou menos. A torneira que vazava constantemente já foi arrumada por um amigo com um pedaço de havaianas vintage – aquela azul e branca, que comprei quando da grande reforma inacabada do apartamento. O que um dia foi uma elegante casa de banhos, mais parece um vestiário comunitário de camping, tudo fica suspenso de modo a não ser atingido pela água e a caixa de sabão em pó incauta, pobrezinha, já está em estágio de sobrevida, desfalecendo no chão, se esvaindo em partículas azuis e verdes  de aloe vera. Então eu deveria chamar o seu Luís, que manda seu assistente, que com uma pequena caixa de ferramentas, cutuca o buraco sem tampa, faz algum movimento inexplicável pra pessoas ordinárias não-encanadoras como eu e resolve o problema em meros cinco minutos.  Acabo por não chamar ninguém, acendo um cigarro e espero. Espero. Espero.

→ 4 CommentsCategories: rotina

Here it comes

May 21, 2009 · 2 Comments

Make a point to make no sense, well, here it comes
Speak about the future in the past tense, here it comes

Modest Mouse – Here It Comes

→ 2 CommentsCategories: Music
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Un petit dialogue

May 20, 2009 · 1 Comment

- Dis-moi, pourquoi tu bois beaucoup?
- Parce que…
- Qui est-ce que tu veux oublié?
- Personne.

→ 1 CommentCategories: diálogos

Página 225

May 15, 2009 · 5 Comments

Se de vez em quando encontramos páginas que explodem, páginas que ferem e queimam, que arrancam gemidos, lágrimas e pragas, sabemos que elas provêm de um homem com as costas na parede, um homem cuja única defesa restante são suas palavras, e suas palavras são sempre mais fortes que o peso mentiroso e esmagador do mundo, mais fortes que todos os ecúleos e rodas que os covardes inventam para esmagar o milagre da personalidade. Se algum homem ousasse traduzir tudo quanto há em seu coração, expressar o que é realmente sua experiência, o que é realmente sua verdade, penso que o mundo se despedaçaria, que se reduziria a pedacinhos e nenhum  deus, nenhum acidente, nenhuma vontade poderia jamais reunir novamente os pedaços, os átomos, os elementos indestrutíveis que entraram na formação do mundo.

Henry Miller – Trópico de Câncer

→ 5 CommentsCategories: Puisia

Sometimes

May 11, 2009 · 3 Comments

Já me despedi de tantos amores, tantas vezes, parece que nunca entendi a serventia desse ritual. Olho para o telefone e me pergunto se alguém me atenderia a essa hora da manhã, eu chorando e dizendo que estou morrendo, acometida por dores profundas em lugares desconhecidos. É o tipo de dor que causa morte, tenho certeza. Não existe viva alma que vá desevendar a origem dessa minha enfermidade. Penso que talvez você faça uma vaga idéia. Não tenho ao menos dinheiro trocado ou folha avulsa de cheque pra chamar um táxi que me leve ao hospital. Chamar uma ambulância e dizer o quê? Oi, moça, tá doendo, me busca aqui? Então acredito que vou morrer nos próximos dez minutos e nem vale a pena avisar ninguém. Era você quem estava comigo praticamente todas as noites. Eu preparando algum jantar e você no computador ouvindo qualquer coisa enquanto tomávamos uma cerveja de boca larga nas taças que compramos juntos na terceira vez que fui na sua casa. E depois assistíamos a um filme, eu sempre dormia no meio, às vezes quase no final. Em alguns dias trepávamos sonolentos. Você dormia como um bebê, de costas pra mim e eu, insone, só conseguia observar as pintinhas na curva entre seu ombro e pescoço e suspirar, pensando no que fazer com tantos sentimentos pairando nos travesseiros. Pois, agora, aqui sozinha – digo, agora que estamos aqui, eu e a dor, acabo de assistir um filme até o final, veja só. E com os créditos, uma música do Coldplay. Eu sei que você odeia Coldplay. Eu não ligo a mínima pro Coldplay. Todo fim de amor é brega, como Coldplay. Meus olhos se umedecem e eu tento com força não chorar ouvindo uma música assim tão ruim, que nem nossa era. Não consigo. Um resto de maquiagem escorre pelo rosto deixando o espetáculo ainda mais circense. Por uma fração de segundo, revivo essas cenas específicas da nossa vida juntos que jamais consideramos mencionar em qualquer circunstância. Decido ignorar a dor, o choro, a banda medíocre, a vontade de telefonar. Em vão. Esse tipo de tentativa, na verdade, só me incita a pensar e me torturar mais ainda. Foi quando – com toques de masoquismo – te visualizei com outra pessoa, na sua cama, ou na rua, jantando, se permitindo encantar por alguém como se encantou por mim. Começando uma nova história, conhecendo algum corpo novo. Brincando de ser deus com a vida de outra pessoa. Isso machuca, dói, como nunca doeu – ou certamente doeu e eu talvez não me lembre, tão cega que estou. Eu não quero me despedir de você. Não de você.

→ 3 CommentsCategories: random

Knife

May 5, 2009 · 1 Comment

Tirei do site novo da Warp, que está incrível, por sinal.

→ 1 CommentCategories: Music

Oh, my stars

April 24, 2009 · 1 Comment

- Já parou pra pensar no que te aconteceria se você acordasse amanhã e por algum motivo não pudesse escrever?
- Sinceramente? Acho que o pensamento me ocorreu, mas nada muito concreto, não.
- Pois eu, sim. E muito, por sinal. Imagine que todo o tipo de infortúnio tivesse cruzado seu caminho e você não tivesse mais a habilidade de falar, de usar suas mãos, de enxergar ou até mesmo de se mover. Não existe a menor possibilidade de escrita, mas sua consciência ainda vive. Imaginou?
- Prefiro não. Soa mórbido demais. Árido, seco, triste. Dramático, até.
- Agora pense no ser humano que inventou o horóscopo enquanto instituição, religião, medo da solidão, sei lá.
- Que tem?
- Poxa, um cara desses é praticamente um gênio. Veja só. Primeiro cria-se uma história mitólogica, como uma base, claro – é preciso um contexto, uma certa sedimentação. Logo em seguida, divide-se pessoas em categorias, obedecendo à uma lógica qualquer, que nesse caso é a data de nascimento.
- Onde você quer chegar? Sempre achei que você acompanhasse o ciclo do sol e dos astros e toda essa conversa.
- Então, vai ouvindo. Cada signo tem uma caraterística, certo? Você por exemplo é de Aquário, e diz-se, na teoria, que um aquariano precisa de liberdade.
- Nossa, se preciso.
- O caso é que se você for ler a descrição de cada um, percebe que isso não é um privilégio ou fardo de quem nasceu em janeiro, fevereiro, não sei ao certo. Sutilmente, o camarada floreou aqui e ali,  e acabou por  dizer que todos nascemos com o mesmo sentimento frase-chave inato a um só grupo de pessoas. Essa parte acaba por tornar o processo todo bastante confuso. Todo mundo é todo mundo, pode tudo, sente tudo.
- Certo… Agora me diz o qual era a tua previsão para o dia de hoje, anda.
- Ah, acho que algo como me embonecar, sair, me mostrar, flertar, farrear, me desprender. Não lembro bem, os termos são geralmente os mesmos. Não é uma dica motivacional?
- Opa, se é. É ótima, aliás. Pior são os dias em que nos recomendam meditação. Ou arrumação de armário. Acabo sempre fazendo o contrário, sabia? Resquícios de rebeldia. E qual era tua conclusão, mesmo?
- Então, você não acha isso tudo brilhante? Imagine só. Me desola pensar que posso acordar amanhã com uma idéia engenhosa assim na cabeça e  tragicamente não ter meios de cuspir, expelir, gritar nem ao menos transpirar uma palavra sequer dela pra fora de mim.

→ 1 CommentCategories: rotina

Página 71

April 22, 2009 · 4 Comments

“A vida”, diz Emerson, “consiste naquilo que um homem está pensando o dia inteiro.” Se isso é verdade, então minha vida nada mais é que um grande intestino. Eu não só penso em comida o dia inteiro, mas também sonho com ela durante a noite.

Henry Miller – Trópico de Câncer

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