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Infinta highway

November 18, 2009 · Leave a Comment

Eu sofro muito pra escrever. Eu sofro muito pra tudo, aliás. Quando eu saí da barriga da minha mãe colocaram uma pulseirinha ao redor do meu braço. “Sofredora”. Essa aí nasceu pra sofrer muito. Eu sou medrosa, vivo paralisada por um sofrimento que não me larga. Essa minha condição não me deixa respirar em paz, jamais. Um dos meus maiores medos – depois de lagartixas e ladrões,  é o medo do que os outros possam pensar de mim. Tem dias que eu passo o tempo todo pensando nisso, no que podem estar pensando a meu respeito. Então fico possuída, sem saber o que fazer, porque nada do que eu faço é bom o suficiente pro gosto dos outros, que são outros, afinal. Às vezes eu nem quero me levantar da cama, porque estou com alguns quilos acima do peso e as roupas que disfarçam a minha barriga estão todas sujas e eu vou ter que vestir alguma blusa muito justa e as pessoas vão me olhar e perceber que eu engordei um pouco. Tem horas que o desespero é tão grande que eu me pego considerando pular da janela do banheiro do trabalho, é muito alto lá. Fico olhando pra baixo e tenho frio na barriga imaginando quanto tempo demoraria o trajeto. E se eu estou vestindo uma calcinha decente. Mas eu desisto logo porque sei que as pessoas vão me julgar e me chamar de suicida e isso eu não posso admitir. As pessoas pensam que os suicidas são pessoas que não dão conta da vida e às vezes elas até são mesmo, mas eu não tenho condições de assumir pra ninguém que eu não dou conta das coisas, principalmente da vida. Por isso é que eu vinha dizendo que escrever é um grande sofrimento pra mim, porque eu me preocupo demais com o que os outros vão pensar. Preciso ler cada linha que eu escrevo umas dez vezes, pelo menos, que é o número de pessoas que eu calculo que possam ler o que eu escrevi, cada qual com a sua conotação. Na maioria das vezes eu desisto, deixo de lado, não quero desagradar ninguém nessa vida, não. Eu gosto de escrever. É uma das coisas que eu consigo dizer pros outros que faço mais ou menos bem. Mas escrever é difícil demais, dada a minha condição de sofredora e medrosa. Acho complicado criar personagens, por exemplo, porque todo mundo sabe que um personagem geralmente é inspirado nas pessoas que a gente conhece. Na maioria das vezes é isso aí, mesmo. Eu observo muito as pessoas, então eu me baseio na vida delas pra escrever. Até aí, tudo bem, não tem problema nenhum. Cada um com a sua musa. A questão é que eu acho que a gente vê nos outros o que a gente sabe que tem em si mesmo. E não sou só eu que pensa assim. Por isso acho problemático sair criando um bicho todo retalhado com sentimentos misturados porque no fundo eu estou falando de mim mesma. Eu posso ser um bocado de pessoas ao mesmo tempo. Com milhares de defeitos. Ninguém ama quem tem defeitos. E como eu morro de medo do que os outros vão achar de mim, eu não tenho coragem de me expor tão descaradamente. Assim, na internet, em um blog, onde qualquer um pode entrar e ler e entender tudo errado. Vão parar de me amar ou vão me julgar como sofredora. O que eu bem sei que eu sou, mas não quero minha vida baldeando por aí na boca suja das pessoas. “Nossa, você viu como ela sofre? Cruzes. Detesto gente assim”. Daí vou trabalhar imaginando que as pessoas sabem o que se passa na minha cabeça ou então vou me sentar num restaurante e encontrar um conhecido na mesa ao lado que participa do círculo de amigos dos meus amigos e ele vai comentar com os conhecidos dele enquanto come sua pasta ao pesto que eu sou uma sofredora. E isso não me deixa escrever como eu gostaria de escrever e então eu sofro muito. Gostaria também de terminar esse texto dizendo que eu não me importo, que basta eu botar a boca no trombone e falar que eu sou uma sofredora e que se foda todo mundo, mas eu não consigo, porque eu tenho muito medo do que as pessoas possam pensar de mim.

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Por aí…

October 26, 2009 · Leave a Comment

Ganhei uma seção nova no blog da Dani Arrais, o Don’t Touch My Moleskine.
A ideia é que todos mandem fotografias de autoria própria e, a partir delas, eu escrevo um continho.
Para saber mais clique aqui.

Liberte o fotógrafo que existe em você e participe!

→ Leave a CommentCategories: contos

Página 23

October 16, 2009 · Leave a Comment

VII

Lembra-te que há um querer doloroso
E de fastio a que chamam de amor.
E outro de tulipas e de espelhos
Licencioso, indigno, a que chamam desejo.
Não caminhar um descaminho, um arrastar-se
Em direção aos ventos, aos açoites
E um único extraordinário turbilhão.
Por que me queres sempre nos espelhos
Naquele descaminhar, no pó dos impossíveis
Se só me quero viva nas tuas veias?

Hilda Hilst – Do Desejo

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Pausa para o onanismo

September 28, 2009 · Leave a Comment

Muito se debate a importância das oficinas literárias na vida de um jovem escritor. Pois bem, eu, do alto dos meus _ _ anos, sou jovem com louvor e, mesmo sem um único livro publicado, me considero escritora. Passeando pela grande rede, caí em um link* (pode clicar, vai com fé) cujo mote é: “Dez motivos para um escritor iniciante cursar uma (boa) oficina literária”. Não pretendo me aprofundar na discussão, não, que sou gente humilde, nunca li Beckett ou Joyce, minha única experiência com uma oficina foi frustrada, abandonei a classe na segunda aula por uma questão muito simples da mais pura pirraça. Portanto não posso sair por aí me refestelando nos sofás alheios e palpitando aleatoriamente sobre a cor da sua mobília. Com a cabeça bem baixa, à la Charlie Brown, gostaria só de chamar a atenção para um ponto do post em questão:

5. Para quem está ansioso por mostrar seu trabalho, é a chance de evitar jogá-lo sem filtro num blog ou livro pago do próprio bolso, o que no futuro será fonte de culpa e horror.

Eu lá não sei muita coisa, não, mas aprendi muito bem aprendido, de tanto ouvir minha mãe, sábia bibliotecária com duas aposentadorias na bagagem, dizer a seguinte frase: “Vergonha nessa vida é matar e roubar”. Sou a favor de um blog gratuito, ou de um livro pago com o próprio dinheiro suado, sim, por que não? O importante é dar a cara à tapa, mesmo que só amigos leiam e elogiem. Eu mesma tenho aí – à disposição de quem tiver tempo livre – um vasto arquivo de textos que não me orgulho muito, alguns eu gostaria de apagar, fazer sumir da face da internet. De outros eu gosto bastante, mesmo que contenham erros gramaticais e pobrezas do gênero. Digo que cada texto foi uma caminhada até aqui, onde estou agora – lugar que não sei bem qual é, diga-se de passagem. Mas imagino que minha escrita tenha melhorado um gole.

Quem realmente tem interesse na dura vida literária não vai se bastar somente de um blog. Vai buscar mais fontes. Mais importante, quem quer virar escritor de carteirinha, há de ler muito (nem todo sublinhado na internet é um hiperlink, veja bem). Não precisa também sair dando buscas em tudo quanto é lista de livros imprescindíveis na formação de um jovem escritor. O processo da leitura – na minha opinião humilde que não vale vintém – deve ser como quando nos apaixonamos. Um primeiro olhar de curiosidade, seguido de um reconhecimento de terreno. Um entendimento mútuo. Nos queremos? Pois então vamos cair pro abraço. A partir daí é só alegria. Cada palavra bem colocada em cada frase de cada parágrafo se transforma em um grande deleite aos olhos, um arrepio na nuca, um frio na espinha. Rabiscar um livro todo com pensamentos soltos, riscar trechos, dobrar pontinhas de páginas, deixar suas marcas naquele que te deixa marcas também. Tesão. Tudo isso, de preferência, se o livro for seu, que rasurar livro alheio costuma causar discórdia entre as gentes.

Querem um exemplo? Leiam o trecho inicial de Tereza Batista Cansada de Guerra, de Jorge Amado, grande bardo da nossa língua pátria:

Já que pergunta com tanta delicadeza, eu lhe digo, seu moço: desgraça só carece começar. Começou, não há quem segure, se alastra, se desenvolve, produto barato, de vasto consumo. Alegria, ao contrário, meu liga, é planta sestrosa, de amanho difícil, de sombra pequena, de pouco durar, não se dando bem nem ao sol, nem à chuva, nem ao vento geral, exigindo trato diário e terreno adubado, nem seco nem úmido, cultivo caro, para gente rica, montada em dinheiro. Alegria se conserva em champanha; cachaça só consola desgraça, quando consola. Desgraça é pé de pau resistente; muda enfiada no chão não demanda cuidado, cresce sozinha, frondosa, em todo caminho se encontra. Em terreiro de pobre, compadre, desgraça dá de abastança, não se vê outra planta. Se o cujo não tem a pele curtida e o lombo calejado, calos por fora e por dentro, não adianta se pegar com os encantados, não há ebó que dê jeito. Lhe digo mais uma coisa, meu chapa, e não é para me gabar nem para louvar a força dos pés-rapados mas por ser a pura verdade: só mesmo o povo pobre possui raça e peito para arcar com tanta desgraça e seguir vivendo. Tendo dito e não sendo contestado, agora pergunto eu: que lhe interessa, seu mano, saber das mal-aventuras de Tereza Batista? Por acaso pode remediar acontecidos passados?

Torço para que cada um que tenha lido esse pequeno trecho tenha sido arrebatado como eu fui, e que corra para o sebo ou livraria ou biblioteca mais próximos, continue a leitura, se delicie e goze bastante. Vá às alturas, que se literatura não é uma relação carnal, de pele, de cheiro e de gosto, então, meus caros, eu não sei de nada, mesmo.

*ao dono do post: se por algum acaso dos sistemas de pingback chegar até aqui, por favor, não se zangue comigo, não é nada pessoal.

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This is not a love song

September 27, 2009 · 7 Comments

Sentada na cama com o computador no colo, cheia de desespero pensando nos intermináveis prazos, perdida no grande buraco sem fundo da procrastinação, me pego atazanada por um zunido no lugar mais escondido da minha cabeça. Ele não me abandona nunca, esse zumbido. O burburinho que me diz que a qualquer momento você, deitado ao meu lado, assitindo a um programa sem graça de comédia, vai se levantar e me dizer que está de partida. É. Você vai se levantar e vai embora, vai me deixar porque se cansou de mim. Descobriu todos os meus piores defeitos e vai embora porque sabe que eu sou incurável, um caso crítico, um carro quebrado, sem conserto.  Uma fraude. Eu sou uma fraude. Pra espantar esse mosquito desaforado dentro de mim, me entrego novamente ao terror das pequenas tarefas a serem cumpridas. Meticulosamente faço uma lista mental. Cortar as unhas do pé, comprar o hidratante capilar que protege as cutículas dos efeitos nocivos do sol e das tesouras implacáveis da cabelereira do bairro, marcar dermatologista e criar coragem de tirar aquela pinta extraterrestre das costas, responder e-mails pendentes, marcar encontros pendentes, dar continuidade aos projetos pendentes, comprar limpador de forno e molho shoyu, ligar pra minha mãe e dizer que está tudo bem e prometer que vou ficar rica em algum momento entre o ano que vem e o próximo neto que ela vai ganhar de algum dos meus irmãos. Então você se mexe na cama e coça o nariz e eu me lembro que daqui a pouco você vai me deixar. O engulho vem do fundo do meu estômago e atravessa minha garganta sem nem pedir passagem. Começo a chorar sem alarde, sem som, as lágrimas deslizam enquanto você, entediado, troca de canal. Você nem percebe a manifestação física da minha paranóia mais profunda. Ainda bem, isso só apressaria sua despedida. Seguro as fungadas denunciadoras e tenho certeza que alguém já te descobriu. Existe alguém aí fora no mundo que viu tudo o que eu vejo em você e te confiscou de mim. Eu não sou merecedora de um cheiro como o seu, ou de beijar sua boca tão macia, tão doce. Como alguém como eu pode ter alguém com umas costas tão bem desenhadas como as suas? Não, isso não é possível. Não pra alguém como eu. Sem saber o que se passa, você me olha, sorri e pergunta se está tudo bem. Digo que estou alérgica, que preciso levar o edredon pra lavanderia, muita poeira acumulada, vou aproveitar o tempo bom, etc. Não consigo parar de falar morrendo de medo da sua partida iminente. Você me interrompe num movimento só. Segura meus cabelos com uma mão, o rosto com a outra, me puxa e me beija apaixonado. Parece até que você leu meus pensamentos infantis e resolveu afastá-los todos de uma vez. Não, isso não é pra mim. Nada disso é pra mim. Volto a contar o tempo ao contrário, esperando com tristeza a hora dessa minha festa acabar.

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Hey, honey, take a walk on the wild side

September 18, 2009 · 5 Comments

O que eu tomei por amor ontem, hoje tomo por masoquismo. A cada dia um conceito novo aparece na minha cabeça à respeito de um mesmo tema. O que me tornava forte ontem, me enfraquece os ossos, hoje. O choque com a realidade me machuca mais do que posso suportar, tento desesperadamente me esconder dentro de mim mesma, dentro dos meus pequenos sonhos, da minha vida inventada. Me apego aos fones de ouvido como única fonte de salvação, os ruídos do mundo me tiram o pouco de energia que pareço ter estocada. Sinto como se minha bateria estivesse viciada, nunca se carrega inteiramente, vivo sustentada por dois pontinhos apenas, jamais quatro. A tristeza me desgasta, a impossibilidade de resolver qualquer problema que seja, a fraqueza perante ao mundo. Um ódio cego pela rotina que mata minha espontaneidade. O orgulho desmedido me encasula, encapsula dentro de uma pequena morte sem prazo de ressurreição, ou um coma sem previsão de término. As ideias não mais comunicam entre si, ficam soltas, flutuando em frágeis balões dentro da minha mente sem que eu consiga alcançá-las, de fato. Sem me apropriar de qualquer uma delas, sem poder senti-las como minhas. Nada aqui dentro é meu. Me perco de mim mesma quase que semanalmente e o caminho da volta é sempre tortuoso. Sinto olhos pousados em mim, me acusando. Nunca sou boa o suficiente. Os olhos pousados são sempre melhores que eu, quaisquer que sejam os olhos, não importa. Nunca sou boa o suficiente. Atinjo o autoflagelo incansavelmente e me pergunto – sem nunca receber resposta convincente, qual é mesmo a necessidade de tanta dor.

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The second sitting for the last supper

September 14, 2009 · 3 Comments

Outro dia um mendigo fedido se sentou ao meu lado no ônibus. No exato minuto em que notei sua presença, guardei meu livro na bolsa e, com um grunhido levemente ofensivo, levantei-me em busca de outro assento livre. “Por favor, vá se lavar”. Fui prontamente ignorada – ele se ocupava de uma garrafa pet cheia de um líquido que pelo cheiro bem poderia ser confundido com combustível de trator. Quando me sentei ao fundo do ônibus, sozinha, fora do seu alcance tóxico, pensei em uma piada, uma frase pronta que seria devidamente compartilhada com os amigos quando eu chegasse ao trabalho. Na verdade não pensei em piada alguma, só pensei em dizer: “Hoje um mendigo fedido se sentou ao meu lado no ônibus”. Então alguém concordaria com a minha atitude e tudo ficaria bem. Querendo me redimir por ter me levantado tão abruptamente, me perguntei se eu não deveria ter ficado ali com a minha culpa cívica, sentindo seu fedor azedo de merda e suor seco de quem passou sete anos sem vislumbrar um chuveiro, ducha ou uma bica sequer. Ou que ficasse ali com o nariz tapado, não sei. Tentei imaginar também se ele teria se ofendido com o meu gesto tão politicamente grosseiro. Por fim preferi acreditar que ele pouco se importou, que para ele tanto faz como tanto fez, que eu talvez quem sabe poderia ter-lhe oferecido alguns trocados, umas moedinhas só, um café ou uma pinga. Mas nada fiz, além de me afastar. E tudo bem, tudo assim, ele seguiu com sua existência imunda e eu com a minha altamente higiênica, excessivamente limpa.

→ 3 CommentsCategories: rotina

Venice

August 28, 2009 · 5 Comments

Acho que foi o cansaço que bateu, talvez. Pode ser o tempo, o esquecimento, a vida, mil coisas. O fato é que as histórias românticas perderam o espaço no mundo, ninguém mais quer viver um épico. Escrever cartas e sofrer por amor. Viajar quilômetros em estradas empoeiradas, consumidos por uma ânsia sem cura, clamando pela pessoa amada, lutando, vendo as tripas se embolarem lá dentro, sem chance de recuperação. Agora é tudo meio simples demais, fraco, inssoso. Os corações estão batendo em nome de soluções, causas, dinheiro no banco. Disque-romance. As pessoas parecem ter medo, o cinismo tomou conta. Romeu e Julieta são só mais uma história, um conto da carochinha, esquecidos na cidade que afunda. O amor vai junto com Veneza e ninguém mais quer escrever músicas românticas pra depois cantá-las a plenos pulmões. Como era mesmo a letra que sempre achamos brega e sempre soubemos cantar?

“Eu te amo e vou gritar pra todo mundo ouvir
Ter você é meu desejo de viver
Sou menino e teu amor é que me faz crescer
E me entrego corpo e alma pra você”


E daí que amar é cafona? Divirtam-se no fim de semana.

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Time warp

August 16, 2009 · 13 Comments

Pego ônibus todos os dias e vivo a me perguntar se é possível uma existência sem tanto medo de tudo. Em alguns dias os medos que me tomam o tempo de leitura são insignificantes, bobos, infantis, falíveis. Olho os prédios em movimento, tenho pavor de perder a bolsinha de maquiagem importada, de não pagar contas por falta de fundos, ter o nome pintado de vermelho em monitores de computadores alheios e virar uma pária, não poder abrir um crediário, conta em banco, comprar sapatos, acabar na cadeia, etc. Ou, até mesmo, medo de ser sincera com os amigos, ser taxada de chata quando manifesto um desacordo, afinal, ninguém quer ser taxado de chato nessa vida. Mas em outros dias me vejo tomada por um medo que transcende o próprio medo, e esse medo além do medo eu digo que é pânico. Meu maior pânico é a solidão. Transito em ambientes cheios, lotados, entupidos até a tampa. Moro na terceira maior cidade do mundo, o que mais tem aqui é gente e eu acordo me sentindo sozinha e só consigo pensar na minha mãe tendo que me acompanhar até a sala de aula da Tia Mônica no Jardim III enquanto eu me descabelava em desespero segurando a pastinha verde com meu nome na etiqueta encapada. Meus olhos se enchem d’água enquanto os passageiros entram e saem no ponto do Hospital das Clínicas, com seus fedores, doenças e desamores. Penso no obituário e nas pessoas que morrem sozinhas e imagino meu nome lá, seguido de um texto enxuto: Morreu aos 90 anos, solteira. Deixa irmãos e sobrinhos.

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Página 32

August 4, 2009 · 2 Comments

(…) eu me exalto e me estimulo quando renuncio ao enorme peso de uma lógica implacável. Obrigo-me a girar leve como um pião para aplacar a lucidez e incitar o delírio, para escutar minha intuição.”

Anaïs Nin – Incesto

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