Bastou apenas um olhar para que a beleza do aleatório despertasse em seu antes convicto coração um forte e intenso desejo e que nesta ocasião foi definido precipitadamente como curiosidade.
O que não o faz errado. Não fosse essa denominação, como dar vazão àquele turbilhão de sentimentos novos e desconexos que contrastavam com toda a certeza e segurança arduamente alcançadas?
A partir dali buscou os subterfúgios existentes para justificar suas atitudes. Era tão bom com as palavras e por um instante percebeu que sua própria essência o traíra. Nem que inventasse um novo alfabeto, conseguiria verbalizar tudo aquilo que fazia seu corpo vibrar e pulsar num compasso estranhamente desconhecido.
Se tornou tão vivo que já não cabia mais em nenhum lugar ou situação que não fosse vinculada à sua nova condição.
De súbito levantou-se, abriu a porta e saiu.
One hundred telephones
May 5, 2008 · 2 Comments
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I Shall Be Free
April 29, 2008 · 1 Comment
Arlete era professora aposentada, viúva, não tinha filhos, netos, sobrinhos, irmãos e nem ao menos primos. Era uma senhora solitária, de idade não tão avançada, mas com o rosto marcado por algumas - muitas - linhas de expressão ao redor dos olhos e dos lábios. Arlete não tinha os cabelos roxos como a grande maioria de suas vizinhas. Há muito havia desistido do trato com os cabelos e adquirido uma peruca que se assemelhava ao corte de Elizabeth Taylor no filme “Gata em Teto de Zinco Quente”, que era um de seus prediletos.
Suas atividades concentravam-se basicamente em cuidar da antiga casa, ir à feira e floricultura, fazer palavras cruzadas e assistir TV. Eventualmente sentava-se na calçada em uma cadeira de praia de alúminio e assento de náilon, com um livro ou revista, e compartilhava com as senhorinhas de cabelos roxos os acontecimentos que chocavam a cidade dia após dia. Trocavam receitas e marcavam noites de baralho que nunca aconteciam. Arlete sempre encontrava uma maneira de se esquivar das reuniões. Ela gostava da solidão.
E, em um desses dias iguais em sua vida, Arlete acordou no meio da noite, perturbada pelo sonho mais vívido de que se recordava. Ela estava no meio do pátio do colégio que estudou quando criança, sozinha, assustada, quando uma criatura mágica apareceu, a envolveu com braços que não eram braços, mais pareciam galhos de árvores cuidadosamente encapados com um fino tecido branco e brilhante. O ser encantado emanava uma forte luz e tinha uma voz doce, suave. Arlete não soube precisar se era um anjo, uma fada, um elfo ou qualquer animal que povoe um livro de histórias infantil.
Quando acordou escreveu rapidamente o que lhe havia dito a criatura: “Em quarenta dias eu voltarei. Em quarenta dias lhe darei a grande resposta”. Arlete, que teve uma criação católica, passou a rezar fervorosamente durante os quarenta dias que se seguiram. Andava sempre com um rosário no bolso, e cada vez que fechava os olhos ouvia aquela voz que soava como música em seus ouvidos. Nunca se sentiu tão viva, tão plena. Sentiu que finalmente todos aqueles anos que passou ajoelhada no milho em penitência, todos os domingos sem lacunas ouvindo a missa do Padre Miguel, todas as procissões, todas as novenas, nada daquilo seria em vão. Sua resposta chegaria.
Ao final do quadragésimo dia, quando lavava uma muda de roupas, enjoada com o cheiro daquela barra sabão caseiro, Arlete se deu conta que esperou por quarenta dias por uma resposta da qual ela não sabia a pergunta. Afinal, qual era a sua grande dúvida? Teve a vida que escolheu, amou seu marido intensamente, quando professora, amou cada um de seus pequenos alunos, amou cada livro que leu, cada filme que assistiu, cada novela que acompanhou na TV. Nunca quis ter filhos, acreditava não saber concentrar tanto amor em uma criança só. Amou profundamente a solidão. Chegou a pensar que a Resposta seria então o fim de sua vida. O ser mágico viria com ordens do Supremo para buscá-la e levá-la para o que poderia ser definido como uma nova etapa em sua existência.
O quadragésimo-primeiro dia discorreu sem arroubos. Arlete vestiu uma roupa bonita, se maquiou, perfumou, ousou até colocar brincos. Queria estar impecável para o grande momento. Mesmo sabendo que se morresse iria para debaixo da terra, seria comida até os ossos e só o que sobraria dela seria a peruca de Liz. Espantou os pensamentos tolos e acreditou que sua alma chegaria ao paraíso bem vestida e pronto. Não poderia encontrar seu finado amor em más condições.
O dia passou e nada aconteceu. Assim sendo, dormiu uma noite tranquila, sem sonhos, acordou praticamente na mesma posição em que havia se deitado. O rosário ainda estava preso à sua mão direita. Arlete estava mais viva do que no dia anterior e mais viva até mesmo do que no dia em que nasceu. E nada de anjo, mago, luz ou resposta alguma. Deu uma grande gargalhada e foi cuidar de seus afazeres, esperando ansiosamente apenas pelo momento do dia em que poderia sentar-se em seu grande sofá encapadado, soltar as pantufas de plush no chão e calmamente assistir à sua novelinha das cinco. Essa sim, nunca a deixava na mão.
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Them/Shoes
April 11, 2008 · 6 Comments
Se conheceram no colégio. Ela era a menina tarciturna da classe. Se sentava na segunda carteira, usava óculos, tinha poucos amigos. Ele poderia ser classificado como alguém da turma do meio - nem popular, nem cê-dê-éfe. Um dia fizeram uma prova em dupla, muito provavelmente porque o melhor amigo dele estava ausente e ela não tinha a quem recorrer. Por uma combinação de fatores, tiraram nota máxima. E foi assim que a amizade começou. Passaram por muitas coisas juntas, viram amizades, amores e temores se criarem e se desfazerem ao longo de muitos anos.
Até que um dia, em um despretensioso happy hour, beberam além da conta, se beijaram, pegaram o primeiro táxi disponível, que os levou ao primeiro motel barato que o taxista conseguia se lembrar naquele momento um tanto quanto constrangedor, fizeram sexo desvairado a noite inteira e depois não descobriram nenhum motivo para que não passassem o resto de suas vidas juntos.
Ele se mudou pra casa dela, levou uma parca mudança - uma caixa com roupas e outra com livros. Se amaram sem muito alarde, nunca houve um momento de desespero. Tudo era muito calmo. Caminhavam todas as manhãs em um parque próximo, tomavam banho juntos. Durante as noites ela assistia novela e fazia ponto cruz - um hábito herdado da mãe, enquanto ele passava horas mergulhado em seus livros de História.
Se casaram em uma cerimônia simples, com poucos convidados, em um pequeno buffet de bairro. Algumas de suas amigas do interior compareceram. A mais cotada para pegar o buquê, de fato, o fez. Os amigos dele seguiram bebendo cerveja na temperatura ambiente e cortando sua gravata em troca de alguns cheques sem fundo. Passaram a lua-de-mel em Águas de Lindóia.
E assim, como em um dia perfeitamente ensolarado cai uma tempestade de gelo, ele a buscou no final do expediente no trabalho, a levou em uma pequena lanchonete nas redondezas e, entre uma mordida no lanche de salsicha e outra, disse que não a amava mais. Não era outra, não era ela, não era nada, ele não sabia o que era. Somente dizia que não sentia mais nada, absolutamente nada que o motivasse a continuar casado com ela.
Ela derreteu. Por dentro, por fora, por qualquer outro lugar. As paredes do lugar começaram a derreter com ela. Cadeiras, garçonetes, chapas e estufas engorduradas, máquinas de café. Tudo foi virando uma massa só aos seus olhos. Ela se misturou com a gosma de dor, medo, jogos americanos e óleo para fritura. Foram para casa. Ele pediu uns dias para encontrar algum canto onde pudesse acomodar suas duas caixas.
Os dias, que a princípio seriam dois ou três, viraram duas semanas. O coração dela ainda esperava que ele pudesse mudar de idéia, deu o melhor de si para que ele se lembrasse do quão especial ela era na vida dele, e chegou acreditar que realmente o fosse. Ele seguia impassível e ela seguia esperançosa. Inclusive comentou com umas pessoas mais chegadas que estavam se separando, e que claramente era temporário.
Mas não era. Ela acordou um dia e ele não estava mais dormindo no sofá-cama da sala de televisão. Não tinha mais ele, nem caixa, nem sequer o cheiro da sua loção pós-barba barata. Ela precisava sair dali, precisava trabalhar, precisava falar com alguém, precisava saber dele. Precisava dele. Precisava, do verbo precisar.
No trabalho tentou manter a calma e a discrição, mas por dentro ela se contorcia em espamos de impotência. Finalizou algumas atividades pendentes, jogou muitos papéis fora. Saiu pra almoçar com alguns colegas, mal tocou no prato feito. Arroz-feijão-bife-ovo. Voltou sozinha para o trabalho. Ao entrar no elevador apertou o botão do último andar - o seu era o primeiro.
Durante a subida, ela praticamente não pensou em nada, olhou para o pequeno monitor que noticiava os muitos quilômetros de engarrafamento, os índices da bolsa, a temperatura para o final de semana, propagandas, propagandas, propagandas. Mal ouvia a conversa das pessoas que iam desembarcando pelos andares afora.
Plim. O elevador parou e ela se dirigiu ao peitoril de uma ampla janela. Calmamente tirou os sapatos e se sentou ali. Hesitou. Sempre teve medo de altura. Num movimento preciso, se levantou, esticou os braços, respirou fundo e pulou. Sim. Ela pulou. A queda foi rápida e indolor. Mas ao mesmo tempo durou anos. Durou todos os anos de sua insignificante vida. Cada milésimo de segundo equivalia a um ano. E ela ia deixando para trás nesse vôo de liberdade tudo aquilo que havia meticulosamente guardado.
A infância difícil, a adolescência insuportavelmente só, as inseguranças, as pequenas esperanças, os desejos reprimidos. Tudo ia se soltando dela, saindo pelos poros. Ela gritava alto, aliviada por abandonar tantos anos de uma angústia que não tinha cura. Estava indo de encontro ao maior obstáculo já enfrentado por qualquer ser vivente. Não se sentia covarde, pelo contrário, sentia-se a mulher mais poderosa do mundo. Cansada de esperar pelo iminente chegar, ela escolheu abraçá-lo, envolvê-lo, absorvê-lo.
Sendo assim, pulou.
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Da série “grandes dúvidas universais”
March 12, 2008 · 1 Comment
Como se espera que de uma fonte deliberadamente seca jorre uma gota d’água sequer ?
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Could we
February 10, 2008 · 10 Comments
A coisa funciona mais ou menos da seguinte forma:
Você, enquanto mulher solteira com uma turma extensa de amigos, freqüenta baladas, seja nos fins de semana, ou até mesmo em uma terça ou quarta qualquer.
É normal, você se arruma, faz as unhas, se depila, usa calcinhas especiais. As confortáveis marrons sem costura ficam renegadas ao fundo da gaveta. Você investe tempo e dinheiro para se tornar uma pessoa mais interessante, mais atraente aos olhos do sexo oposto. Ou do mesmo sexo - dentro das suas devidas preferências.
O que acontece normalmente é que você sai, encontra os amigos, bebe muito, dança sem parar. Eventualmente esbarra em alguém, que no escuro soa levemente interessante e vocês se beijam, desajeitados em meio a todo o empurra-empurra. Em alguns casos, trocam nomes e telefones, ou até mesmo os usuais endereços eletrônicos. Só que na maioria das vezes você entra esbaforida e bêbada em um táxi, segurando os sapatos sujos nas mãos, e vai para casa dormir e amargar uma ressaca solitária no dia seguinte.
E, em um desses dias, você que já está cansada da solteirice, de não ter alguém com quem dividir aquele pote enorme de sorvete no congelador e o minúsculo lençol de malha, sai mais uma vez com os amigos, sem maiores pretensões, sem a esperança do príncipe encantado e seu cavalo branco estarem à sua espera na porta da balada com um buquê de rosas vermelhas na mão. E é aí que a coisa acontece. Não digo que é destino, porque não é nesta palavra mística que reside a minha crença. Você, sem mais nem menos, olha para o lado e vê um garoto que, por algum motivo que talvez Freud explique, te chama mais atenção do que todos os outros zumbis que usam as mesmas calças jeans desbotadas, as mesmas camisetas brancas tamanho P com as mangas dobradas e os mesmos tênis propositalmente surrados.
Vocês se cruzam na fila do banheiro e se medem. Analisam as possibilidades. É, definitivamente, ROLA.
Quando menos se espera, vocês estão se beijando romanticamente no meio de um corredor apertado, com uma música nonsense tocando. Os amigos dele se cutucam, vangloriando sua conquista.
A partir dali, os beijos dão lugar à conversas básicas iniciais. Todo aquele blablabla de o que você faz, de onde veio, para onde vai. E de repente te bate aquela vontade louca de levar aquele moleque rebelde descabelado para sua casa, cuidar dele, fazer ele virar homem, deixar ele entrar na sua vida e bagunçar toda a sua já existente bagunça.
Hoje não, mas no dia seguinte ele vai.
E vocês trepam pela primeira vez. É estranho, constrangido, como todas as primeiras vezes com pessoas que você ainda não tem intimidade, mas que existe a remota possibilidade de não ser aquela a única trepada.
Daí pra frente é só alegria. E essa história todo mundo já conhece. Vocês se apaixonam, começam a passar uma quantidade excessiva de tempo juntos. Abrem a caixa de Pandora e compartilham todos os seus maiores segredos, medos e desejos. Em um dado momento você se vê encurralada a conhecer sua maior rival, a Dona Sogra. E logo mais as tias, primos, amigos de faculdade e uma infinidade de pessoas que a princípio não dizem muito, mas que à medida em que vocês começam a fazer os famigerados planos de se casarem e morarem em uma cobertura com samambaias, passam a fazer parte do seu maior pesadelo. Essa gente toda para o resto da minha vida?!
Em meio a tantas pessoas e probabilidades, vocês dois começam a se perder um do outro. Já não sabem mais o significado do “para sempre” tão almejado.
Vocês, que tanto queriam um ao outro, e tanto se adoravam, já não se conhecem muito bem mais.
Se olham e não se vêem.
E é então que bate o desespero, que toma seu corpo como uma droga de alto calibre e que não te deixa muita escolha a não ser abandonar o barco ou então a alternativa mais estúpida, porém cada dia mais popular.
Vocês, numa noite de sábado qualquer, entediados com a programação da TV, inocentemente resolvem que a camisinha não se faz necessária naquele momento. A pílula do dia seguinte vira a pílula de três dias depois.
Quando se passa um mês e sua menstruação, que nem é tão regulada assim, não desce, você se sente vitimada pela própria imprudência. E se pergunta como pode ter sido tão absurdamente burra. No fundo você sabe que não foi, mas prefere acreditar piamente naquela verdade mentirosa.
Obviamente você opta por um aborto, que lhe parece a solução mais plausível. Mesmo que você nem ele tenham um centavo furado para bancar qualquer uma das opções.
Secretamente, sem compartilhar nem mesmo com a mais fiel das amigas, você imagina como seria seu bebê. Você, que está inchada como um balão, se acha a mais linda das mulheres. E fantasia com o seu bebê. Seu bebê.
Mas a realidade grita, berra, urra com você.
Tudo é bem simples, você consegue o dinheiro emprestado. Seu namorado é um idiota. Alguém que não ele, te acompanha até uma clínica de classe média alta.
Seu namorado é cada dia mais idiota.
E você faz o que antes parecia ser o maior dos pecados. Sim, você, a tão querida filhinha da mamãe, faz um aborto. Deliberadamente interrompe uma vida.
Simples assim, você paga uma fortuna, te dão um remedinho, você dorme, e dez minutos depois, voilà, acabou-se o bebê.
Seu namorado continua sendo um idiota, seus amigos são incríveis e você já não sabe de mais nada. O combo culpa católica mais a frustração do não-bebê te deixam um tanto quanto deprimida - pra não dizer que você fica meio acabadona e perde a vontade de lavar os cabelos.
O pobre do garoto rebelde descabelado continua o mesmo rebelde descabelado do começo da história. Enquanto você, que ainda é uma menina, se depara com a situação mais adulta da sua vida e nutre um ódio enorme do namorado, porque afinal de contas você também quer ser rebelde e descabelada.
Um belo dia você manda o idiota às favas e volta a ser solteira, volta a esperar por alguém com quem dividir o pote de sorvete e a brigar pelo controle remoto.
Você encontra outro garoto e ele te faz feliz. Você promete a si mesma que não vai se iludir mais. E ele realmente te faz feliz.
O outro garoto, aquele, o descabelado e rebelde sem causa, ainda diz que sofre de saudades de você. Ainda diz que você é a mulher da vida dele. E que vocês ainda tem muitas coisas pra viverem juntos. E você ri. Ri dessa ingenuidade do menino. E sente inveja dele por não ser assim, tão alheia a tudo que se passa.
Alguns amigos em comum comentam que ele agora está namorando outra pessoa também. Uma menina que não tem nada a ver com você, mas que a sogra adora. Você finge que acha engraçado, faz até uma piada qualquer. Na verdade você sente um misto de vazio e pena, e até chega a torcer para que o descabelado finalmente tenha encontrado o seu pente.
E é isso. É bem assim que as coisas são e com certeza é assim que elas serão por muito tempo.
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Lá
January 29, 2008 · 4 Comments
Talvez as coisas sejam complicadas demais porque quando a água bate na bunda, o bicho pega e a cobra fuma, eu simplesmente aperto um botão aqui dentro, fecho os olhos e me teletransporto para o outro lado do oceano.
As contas a serem pagas, o trânsito com chuva, o câmbio e a queda da bolsa vão ficando cada vez mais embaçados na minha visão.
E eu me dou ao luxo de passar horas me vendo caminhar por ruas que eu nem nunca pisei. Encontro amigos em cafés aconchegantes e fumamos e conversamos até anoitecer. Pego um ônibus e um metrô e vou lendo meu livro preferido no caminho para casa, ouvindo alguma coisa qualquer no iPod.
Eu também sei como é minha casa lá do outro lado do mundo. As paredes são brancas, as janelas são grandes e tem o parapeito largo. Tenho um sofá azul marinho de veludo e uma estante com muitos livros e cedês. O piso é de carpete.
Quase todas as noites tomo banho de banheira com espuma e muitos sais, com uma taça de vinho e “Sweet Jane” com Cowboy Junkies no repeat.
Depois do banho me sento na janela e fumo um cigarro, contemplando minha rua e as pessoas que passam por ali. Imagino pra onde elas podem estar indo, de onde elas estão vindo. Algumas sorriem, felizes, caminhando sozinhas. Outras seguem taciturnas, provavelmente querendo chegar logo em qualquer lugar. Faço isso todas as noites sem me cansar. Sinto um misto de gratidão, orgulho e uma felicidade sem tamanho por estar ali.
Do lado de cá alguém me chama, ou o telefone toca, e eu não quero sair de dentro do meu sonho, não quero enfrentar as pessoas que me chamam e me ligam sem parar. Não quero fazer o que é preciso para estar efetivamente vivendo todas essas coisas.
Só quero meu edredon, meu cachorro de pelúcia e meu sonho. Só meu.
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Sobre o trivial feijão-com-arroz
January 20, 2008 · 10 Comments
Ontem tivemos mais uma daquelas discussões inúteis que todos os casais tem, e que na maioria das vezes não quer dizer muita coisa, discutimos apenas pelo esporte. Pela necessidade de mostrar para alguém que em algum momento qualquer que seja da vida, estamos com a razão, que aquela parede na cena do assassinato do filme era azul-petróleo e não verde-escuro. Acabamos nos magoando como em todas as outras vezes, e dizemos coisas que na verdade não sentimos, ofendemos familiares pedantes com problemas financeiros, e quando não conseguimos mais argumentar sobre a posição solar ou a vida útil de um jogador de futebol, recorremos aos atributos físicos. Ou à falta deles.
A noite que já estava planejada para ser um sábado com um filminho que saiu na crítica do caderno de cultura do jornal com cinco estrelas e depois um sexo acolhedor, termina por ser mais uma daquelas situações que nos deixa com um nó na garganta. Um nó chega a ser pouco. Um elogio até. Sentimo-nos como mães prestes a parir um filho de quarenta e três semanas de gestação. O feto já está com lodo ali dentro.
Pensamos em todas as pessoas que estão bebendo e se esbaldando em milhares de baladas fabulosas com as pessoas mais fabulosas e as músicas mais fabulosas e nos odiamos silenciosamente. Cada um virado para um lado da cama, remoendo cada palavra utilizada durante a batalha. Sim, porque uma batalha neste caso consiste em duas partes diferentes atirando até batatas um no outro se for pra causar a humilhação seguida da derrubada.
Obviamente não conseguimos dormir. E quando a raiva vai passando e o corpo vai esfriando, pensamos em quão desnecessário foi todo o evento e sentimos uma vontade louca de nos viramos um para o outro e nos atracarmos como os animais que originalmente somos. Nos mordendo, arranhando e dizendo todas as barbaridades e baixarias que já chegamos a ouvir.
Mas já é tarde demais. Estamos machucados, feridos, com alguns pedaços essenciais faltando.
Vamos tentar dormir sem nos encostarmos? Vamos tentar fazer as pazes? Ele vai se levantar, catar suas coisas e ir embora? Será que tomo um dramin e durmo um sono estranho sem sonhos, babo no travesseiro e no dia seguinte vamos almoçar com meus pais como se nada tivesse acontecido?
Preparo um discurso impecável, em cujo texto explicito tudo o que sinto em relação à ele e em relação à forma como eu acho que ele deveria agir, e que ele deveria me respeitar porque eu sou essencialmente como sou e ninguém tem o direito de querer me mudar, e que o amo como ele é, mas que ele não pode deixar de obedecer aos princípios básicos da convivência e todo um monte de frases feitas que já nem sei mais quais eram.
Os pés dele me tocam sem querer e eu sinto uma profunda melancolia por estar vivendo esse drama interminável mais uma vez. Ele se vira e diz que me ama, eu o beijo.
Fazemos o previsto sexo acolhedor. Em silêncio. É possível ouvir os burburinhos vindos da rua.
Nos abraçamos, sentindo aquele gosto familiar na boca, iludidos que essa vez foi a última.
E inocentemente acreditamos que aquela vez foi mesmo a última.
E assim a madrugada segue o seu curso, e o tempo passa, e as coisas podem ou não deixar de acontecer. Dormimos legitimamente felizes.
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Dancing to the radio
January 18, 2008 · 3 Comments
Hoje decidi ouvir aquele álbum que ouvíamos incessamentemente quando você ainda existia. Desde que você sumiu, nunca mais tinha conseguido fazê-lo.
Primeiro porque, como você sabe, essa minha mania de gastar as músicas que gosto muito não me deixa tolerá-las por muito tempo depois. E segundo porque, obviamente, elas eram muito significativas pra mim. Marcaram o relacionamento mais breve e intenso que já consegui viver.
Respiro fundo, minhas mãos tremem e a agulha vacilante toca o vinil. Alguns chiados e a melodia começa a ecoar e a tomar todo o ambiente antes silencioso.
Sensações me voltam de súbito.
E eu nos vejo dançando no meio da sala, levemente embriagados, talvez pelo champagne barato ou ainda mesmo por aquela ingenuidade apaixonada que nos fazia amar tão despudoradamente, sem medo do incerto.
Errando passos de dança estranhos e desconjuntados até o fim do lado A.
O lado B sempre foi o lado mais lento, a dança era outra, e até hoje eu me lembro perfeitamente de cada detalhe seu, de como você tirava minha roupa bem devagar, no ritmo de cada música que tocava.
Chego a sentir seu cheiro aqui.
Esse álbum é a única lembrança que eu tenho de você. Desde que você sumiu eu nunca mais tive coragem de ouvi-lo.
Sinto sua falta.
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Tchã-rã
January 17, 2008 · 2 Comments
Novidade a caminho…!
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Eu sou feliz
January 7, 2008 · 5 Comments
Dia desses estava eu numa fila interminável de banco, pensando na vida, pensando nas contas, pensando em como as pessoas suportam ficar tanto tempo de pé contando com a boa vontade de caixas frustados e mal pagos, quando ouço uma voz estridente ao fundo. Pensei comigo que deveria ser uma daquelas pessoas que adora o coletivo, e vamos nos unir contra a burocracia do país e toda aquela coisa e decidi me virar para trás só pra ver a expressão de cidadã engajada que emitia os brados por civilidade. Coincidentemente no momento em que a olho, ela me olha também.
Era Maristela, uma antiga conhecida, dos tempos de faculdade, se não me engano. Depois de todos aqueles rodeios infinitos das nossas obrigações sociais de cada dia - como você vai, vou bem e você, vou muito bem também e você, e o papagaio do vizinho, a sogra e os filhos - noto que ela usa um daqueles lúdicos buttons ‘quer perder peso, pergunte-me como’.
Maristela, uma otimista de carreira, agora trabalhava, segundo ela, ‘em prol do bem-estar da humanidade’ vendendo toda espécie de tranqueiras que prometia emagrecimento, beleza e até mesmo sucesso.
Desde que a conheço, Maristela, aficcionada por auto-ajuda, sempre distribuiu aos colegas pequenos cartões que ela mesma confeccionava em seu programa arcaico de computador, com mensagens positivas de amor ao próximo, amizade e esperança. Ela acreditava em praticamente tudo que lia sobre o assunto. Acreditava no poder da mente, acreditava no poder da simpatia, no algo mais e na alegria. Mas principalmente, Maristela acreditava no ser humano.
‘Onde já se viu gastar rios de dinheiro com um analista que suga tudo que você tem, enquanto temos livros maravilhosos que podem te ajudar nessa busca incessante pela felicidade?’
Atualmente ela anda mais moderna, claro. Usa o Orkut como forma de divulgação do otimismo enquanto meio de vida. Na descrição de seu perfil, inúmeras citações dos nomes mais famosos do meio. Não bastando, ela manda recados aos amigos diariamente, ‘pequenas notas de força e incentivo aos que amo’, como ela mesma diz. Maristela ama muita gente. Ela tem mil amigos no site de relacionamentos. Impressionante essa Maristela. Conseguiu fazer o que diversos adolescentes tentam desesperadamente fazer por meses a fio. Lotou o seu perfil.
Costuma dizer que, apesar das adversidades dessa vida tão sofrida, se considera uma pessoa muito feliz.
Fico feliz por ela, a Maristela.
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