edifício cinderela

tenho às vezes essa ideia de que se eu achar o apartamento certo vou ser feliz em são paulo. um apartamento antigo, espaçoso e iluminado. chão de taco escuro, janelas grandes. santa cecília ou higienópolis. teve uma época em que eu atravessava higienópolis todos os dias. passava de carro pelas ruas arborizadas admirando os prédios art déco, art nouveau, sonhava com aqueles apartamentos tão cheios de histórias, queria morar no edifício cinderela. minha vontade era morar lá porque sempre senti que é difícil fazer parte de um lugar onde você não nasceu e acho que quando você mora num apartamento antigo pode carregar consigo um pouco da história daquela cidade. sonhei com tardes de sábado regadas a whisky e billie holiday, a casa com poucos móveis, eu dançando distraída na ponta dos pés, você olhando pra mim. você lambendo os dedos dos meus pés no chão da casa semi-vazia. e a billie lá destilando a sua melancolia enquanto o álcool trazia o lusco-fusco e deixava a noite entrar devagarinho nos nossos olhos. blue moon… now I’m no longer alone, without a dream in my heart, without a love of my own.

bed in mirror

eva-rubinstein-bed-in-mirror-rhode-island-usa-1972

 

eva rubinstein, bed in mirror (rhode island, 1972)

caindo

The phlox in the jar is softening,
from the sphere of it a blossom flutters,
and the whole sagging thing makes me think
of my mother’s flesh, when she was elderly, and it was
wilting, keeping its prettiness in its old-fangled gentleness.
It’s as if I’m falling in love, again,
with my mother, through the gallowsglass of my
own oncoming elderliness, as if,
now that she has been gone from the earth
as many years as a witch’s familiar
has lives, I can catch glimpses of my mother, at
moments when she was alone with herself, and would
pick up her pen and Latinate
vocabulary, and describe what it
was like, on their last cruise, when she rose,
by invitation, from the captain’s table,
and stood behind the black, grand
Steinway, in the open ocean,
and sang. I do not need a picture to
remind me of the look on my
mom’s face, when she sang – extreme yearning,
a yearning out at the edge of what was
socially acceptable
on a ship like that, and you could also see
how happy her face was, to be looked at,
and you could see her listening to her own voice,
to hear if it started to go flat, or anything
she needed to do to get the music
to its hearers intact as itself, I am falling,
and I do not feel that there are rocks, below,
I think I may go on falling, like my own
flesh, for the rest of my life, and maybe I’ll
still be falling for my mother after
my death – or not falling but orbiting,
with her, and maybe we’ll take turns
who is the moon, and who is the earth.

sharon olds, still falling for her

som de trovão

Eckels glanced across the vast office at a mass and tangle, a snaking and humming of wires and steel boxes, at an aurora that flickered now orange, now silver, now blue. There was a sound like a gigantic bonfire burning all of Time, all the years and all the parchment calendars, all the hours piled high and set aflame.

A touch of the hand and this burning would, on the instant, beautifully reverse itself. Eckels remembered the wording in the advertisements to the letter. Out of chars and ashes, out of dust and coals, like golden salamanders, the old years, the green years, might leap; roses sweeten the air, white hair turn Irish-black, wrinkles vanish; all, everything fly back to seed, flee death, rush down to their beginnings, suns rise in western skies and set in glorious easts, moons eat themselves opposite to the custom, all and everything cupping one in another like Chinese boxes, rabbits into hats, all and everything returning to the fresh death, the seed death, the green death, to the time before the beginning. A touch of a hand might do it, the merest touch of a hand.

ray bradbury, a sound of thunder

intenção de poema

todos os dias
leio dois poemas
um quando acordo e outro
quando me deito
leio muitos poemas
porque ainda quero
eu escrever
o meu próprio poema
quero dizer:
olha, moço, te escrevi um poema
não copiei de ninguém
ele é meu mas é seu também
quero escrever um poema
pra explicar com poesia
que as covinhas no seu rosto
quando você sorri
me deixam com muito tesão

 

respiraçãozinha

Just as in the horror movies
when someone discovers that the phone calls
are coming from inside the house

so too, I realized   
that our tender overlapping
has been taking place only inside me.

All that sweetness, the love and desire—
it’s just been me dialing myself
then following the ringing to another room

to find no one on the line,
well, sometimes a little breathing
but more often than not, nothing.

To think that all this time—
which would include the boat rides,
the airport embraces, and all the drinks—

it’s been only me and the two telephones,
the one on the wall in the kitchen
and the extension in the darkened guest room upstairs.

billy collins, the breather

a dança dos micro-apartamentos

outro dia vi uma reportagem dessas de decoração, “como fazer com que o apartamento pareça ter o triplo do tamanho”. me lembrei daquele cubículo que você comprou na planta sem me avisar, o começo do nosso fim. um apartamento minúsculo na rua paim com vista pra outro apartamento minúsculo na rua paim foi o começo do nosso fim. ainda nem construídos, um micro-quarto, um micro-banheiro, uma micro-sala, uma micro-cozinha e uma micro-varanda sinalizaram que a nossa história já se ia longe da hora de acabar. não digo que dois corpos não caibam ali dentro das micro-coisas que você comprou na rua paim, pois tenho a certeza que dois corpos juntinhos podem ser muito felizes apertadinhos. basta que queiram dançar a dança dos micro-apartamentos: um corpo vai, outro corpo vem, um braço sobe, outro braço desce, uma perna desliza pra direita, outra perna desliza pra esquerda. um começa onde o outro termina, outro termina onde o um começa. movimentos distintos, encontrados, coreografias improvisadas, certeiras. dois corpos cabem muito bem num micro-apartamento. eu e você é que há muito não dançávamos juntos (imagina que desajeitados ficaríamos nós os dois num micro-apartamento?). acho que eu não sei dançar muito bem, pra falar a verdade. e enquanto não aprendo, penso na pina e na chegada da primavera.