Finalmente a sexta-feira chegou. Estou sentada no interior de um café de esquina com ares europeus. A grande poltrona de couro e a iluminação aconchegante aplacam minha ansiedade, enquanto tento segurar a xícara de cappuccino com as mãos trêmulas. Não faço ideia quanto tempo eu espero por essa maldita sexta-feira – desde o domingo anterior, talvez. De qualquer maneira, soa como uma eternidade. Observo o zanzar eriçado dos jovens garçons e seus cabelos universitários despreocupados e deixo rabiscos num guardanapo estilizado. A caneta desliza no papel que prontamente absorve sua tinta vermelha. Em oito meses de correspondências nunca trocamos cartas físicas, postais ou bilhetinhos, então senti vontade de experimentar sua sensação ao escrever minhas palavras à mão. Sou canhota, você provavelmente é destro, como a grande maioria. Na verdade, eu nem sei, nunca tive curiosidade de perguntar, apesar de imaginá-lo com um caderno no colo, um cigarro na mão esquerda e uma caneta comum na direita. Você me parece um boêmio. Em alguns dias, penso que você me escreve vestindo uma camiseta branca com uma estampa neon bastante desbotada, de malha gasta, com alguns furos ocasionais. Uma caneca de café ou uma taça de vinho ao lado do monitor. O que estará escrito em seus post-its? Vejo um cinzeiro cheio de bitucas de cores diferentes, uma delas manchada de batom. Eu nunca disse, mas sempre gostei de te visualizar no mesmo ônibus que eu, no trajeto de volta para casa. Você se senta na cadeira atrás da minha e, algumas vezes, se inclina em direção à minha nuca e sente meu perfume. Sempre me viro, tenho certeza que é você, mas geralmente só vejo um semblante cansado de uma dona de casa. Ou um contador, professor, corretor, invejoso, advogado, barista, desempregado, amante, estagiário, mártir, sacoleiro, e até algum incauto feliz. Nunca você, uma pena. Lembro-me deles enquanto espero, sentada confortavelmente na grande poltrona de couro, soprando minha bebida. Levanto os olhos a cada pequeno badalo do sininho da porta da rua. Agora é você quem chega, cabelos desalinhados e o sorriso que eu nem sabia seu, só imaginava nesses tantos hiatos na minha caixa de entrada.
*Texto originalmente publicado na minha coluninha Oh, well na Revista PIX.