viajandeiro

complicado é quando as palavras faltam nas horas cruciais, bem no meio de uma frase determinante. é aquela palavra específica que possivelmente mudaria todo o rumo de uma conversa. aquela que traria conclusão, solução ao problema. mas a danada foge, se esconde numa daquelas camadas inatingíveis do pensamento (apesar de aparecer horas ou dias depois, toda soltinha) e te deixa na mão com a opção mais superficial e redundante. aquela que até diz o que era pra ser dito inicialmente, mas de uma maneira tão simplória que todo e qualquer argumento é perdido, esgotado. cuja exaustão de tentativas de busca cria um empilhamento de dessignificação, te coloca no limbo da repetição de frases sem sentido, num mar seco de saliva gasta. na tristeza, por fim, da impossibilidade de comunicar os sentimentos com exatidão. hoje eu quis usar a palavra “abstrato” para denunciar um tipo de comportamento, mas ao invés disso tentei “teórico”, “imaginário”, “fantasioso” e acabei por perder a linha em “viajandão”.

journey to a billion suns

tenho dentro de mim
o brilho de mil sóis.
pensei nisso enquanto lia
o meu horóscopo a dizer
que o sol entrou na casa
por onde ele andava quando
eu nasci
mas a frase solene me saiu
qualquer coisa em inglês:
i have inside me
the brightness of a billion suns; ou
i am worth a billion suns –
valho um bilhão de sóis.
tenho vinte e nove invernos
e agora somo dois verões.
o sol na península ibérica é lindo
e vale mais do que mil sóis
da vida no hemisfério sul.
já recebi muitos elogios
em trinta e um anos astrais
me chamaram perspicaz
oferecida e orgulhosa
cômica e meio louca
mas o que eu mais gosto é esse
que acabei de inventar:
tenho em mim o brilho de mil sóis,
the sparkle of a billion suns,
the sparkle.

§

ganho sempre poucos, mas sempre maravilhosos presentes de aniversário:

Ama como a estrada começa

Cesariny, Uma Grande Razão – os poemas maiores
Assírio & Alvim

henry david thoreau dizia que:

 

The price of anything is the amount of life you exchange for it.

é mesmo um acertado, o senhor.

 

 

olha o perigo, doralice

 

fera na selva

não se podia pedir a uma mulher que partilhasse esse estado de convicção, apreensão – a obsessão, enfim, que o dominava e determinava todos os seus actos. havia nas circunvoluções dos meses e anos iminentes qualquer coisa que se preparava para lhe sair ao caminho, como uma fera pronta a formar o salto na selva. pouco importava que a fera estivesse destinada a matá-lo ou a morrer. o certo era o salto inevitável da criatura; e a moral da história era que um cavalheiro não levava uma senhora a caça ao tigre. com esta imagem acabara por formular a sua vida.

henry james, a fera na selva

 

à janela

I said the forest’s only part of a tree.
Who needs the whole girl if you’ve got her knee?

(que poema lindo, benza deus)

(está em 5:42)

verão

The Girls

That day the boys
took us quickly.
They took us calmly.
It was not in our beds
or in the backseat 
of a car or in a field
on a blanket.
They took us
with the magnificence
of their bodies.
They did not know 
that when we watched
them make a play with skill and grace,
like a player mastering
the chess pieces on a board, silent
guardians of their own 
sacred positions, 
they had us.
Their bodies
were like fortresses,
their minds 
half-barred windows.
They took us with intensity.
They took us
eager and as they took us
we knew we were different.
What we liked most
was their strength,
the throbbing 
muscles in their necks, 
the way their callused
hands gripped
the bat, ready to bear down,
ready to get some.
They did not know
it was enough to 
find us with their eyes
across the field 
behind the gated fence
when the air smelled
of manure and rotting grass
when we did not yet
know we wanted them.

Jill Bialosky